1 A perda da realidade na neurose e na psicose. Vol.XIXNeurose e Psicose VOL. XIX Freud,S. Standart.
2 Neuroses De acordo com Mijolla (2005), as neuroses são transtornos psíquicos sem substrato anatômico detectável. Sua sintomatologia está relacionada à expressão simbólica de um conflito intrapsíquico entre ideias fantasmáticas inconscientes, associadas ao complexo edípico, e às defesas que elas provocam, que possuem raízes na história infantil do sujeito.
3 As neuroses atuais Os primeiros escritos da obra freudiana categorizavam os transtornos emocionais em três grupos e Freud os denominava de psiconeuroses (ZIMERMAN, 1999). As neuroses atuais compunham o primeiro agrupamento, caracterizando-se como transtornos emocionais resultantes da ausência ou inadequação da satisfação sexual; seus sintomas não eram de natureza simbólica. Para tal transtorno a investigação deveria ser direcionada para as desordens sexuais atuais e não em acontecimentos importantes da vida passada. Sua etiologia, neste sentido, é somática e não psíquica (LAPLANCHE; PONTALIS, 1998). Essa denominação está em desuso na psicanálise, entretanto, recentemente tem servido como embasamento para o estudo da psicossomática.
4 As neuroses de transferênciaAs neuroses de transferência constituem o segundo grupo. Elas foram também chamadas de psiconeuroses de defesa. Este agrupamento engloba as histerias, fobias e as neuroses obsessivas. Segundo Freud, apenas estas poderiam produzir a transferência, pois para isso seria necessário dirigir catexias libidinais às pessoas (FREUD, ).
5 As neuroses narcísicasO terceiro grupo era composto pelas neuroses narcísicas, ou seja, as psicoses. De acordo com Freud, a psicanálise não reunia condições para tratar pacientes acometidos desse tipo de neurose (ZIMERMAN, 1995). A justificativa usada pelo fundador da psicanálise era a de que tais pacientes não conseguiam a revivescência do conflito patogênico e a superação da resistência devido à regressão. Freud supunha que essas pessoas abandonavam as catexias objetais e que sua libido objetal se transformava em libido do ego (FREUD, ).
6 Psicose O termo psicose apareceu no séc. XIX, criado em 1845 por Ernst Von Feuchtersleben, um filósofo austríaco que utilizava esta terminologia para denominar, de uma maneira geral, as doenças do espírito. Assim, essa terminologia transformou-se sinônimo de alienação mental (MIJOLLA, 2005). O aparecimento desse termo, segundo Laplanche e Pontalis (1998), levou gradualmente à constituição de um domínio autônomo das doenças mentais, agora distintas não apenas das enfermidades dos nervos como também das do corpo e ainda diferenciadas das doenças consideradas milenarmente “da alma”.
7 Assim, no decorrer do século XIX, o termo psicose espalha-se pela literatura psiquiátrica alemã para designar as doenças mentais em geral, a loucura, a alienação, sem, entretanto, implicar em uma teoria psicogênica da loucura. Ao final do século vê-se uma separação mais clara entre neurose e psicose, quando há uma produção , conforme Mijolla (2005), a psicose, desde o início do século XX, refere-se a todas as patologias, independentes de sua etiologia, que associam a perda da realidade e a criação de uma pseudo-realidade.
8 Dentro desse quadro, verifica-se um processo deteriorativo das funções do eu, em graus variáveis, e um sério prejuízo do contato com a realidade. Uma expressão utilizada no meio psicanalítico ao se referir à psicose é a exposição de um testemunho aberto do inconsciente.
9 Freud (1894) afirma que quando a defesa utilizada contra uma representação incompatível é efetivada, separando-a do seu afeto, esta representação permanece na consciência, embora enfraquecida e isolada, o mecanismo em ação nessa situação é o de recalcamento (verdrängung) que é caracteristicamente usado pelas neuroses. Conforme Hans (1996), verdrängung é habitualmente traduzido como recalque ou repressão. Esta palavra vem do verbo verdrängen, que significa em alemão empurrar para o lado, desalojar. Este verbo ainda remete a uma sensação de sufoco, de incomodo que leva o sujeito a desalojar, deixar de lado o material que o incomoda. Entretanto, segundo essa significação, tal material permanece junto ao sujeito, pressionando pelo retorno, e exigindo a mobilização de esforço para mantê-lo longe.
10 O recalque, mecanismo de defesa relacionado por Freud às neuroses, não consegue eliminar a fonte pulsional que, de maneira constante, emite estímulos que chegam à consciência e reivindicam satisfação. O que este mecanismo faz é empurrar para o lado e não extinguir por definitivo determinado conteúdo. O material recalcado está de certa forma presente também em sua ausência e, mesmo desalojado, se manifesta à distância. Ele pressiona pela volta à consciência, fica numa espécie de ‘salão contíguo ao consciente’ tentando o retorno, já que sua manutenção afastada exige um esforço para mantê-lo fora de cena. O recalque é um estado que exige grande empenho de força para se manter, pois a pressão pelo regresso é constante. (HANS, 1996). Este retorno aparecerá, segundo Freud, sob a forma de sintomas, dos atos falhos, dos chistes e dos sonhos.
11 Freud decompôs o processo de recalque em três momentos.O recalque primário/originário inscreve “algo” ao fundar o psiquismo, deixando marcas vividas e intraduzíveis psiquicamente. Tal inscrição seguirá viva e atual em cada sujeito, mesmo com o passar do tempo. Este é o momento que corresponde à primeira inscrição e simultânea fixação da pulsão numa determinada representação. Ele possui um caráter passivo, já que as primeiras ligações feitas são sínteses passivas que apenas limitam ou impedem o livre escoamento das excitações. O recalque secundário, ou o recalcamento propriamente dito, assinala um recurso defensivo ante o conflito, pois será a defesa privilegiada pela neurose e possui uma característica mais ativa. Neste segundo momento, o recalque propriamente dito incide sobre os derivados psíquicos da representação atingida pelo recalque primário. Assim, o destino destes derivados será o mesmo que o da representação primordial (a do recalque originário): exclusão da consciência. Entretanto, vale assinalar, para que o recalque secundário ocorra não se faz necessário apenas o repúdio do pré-consciente/consciente, mas também a atração exercida pelo recalque originário (FREUD, 1915; GARCIA-ROZA, 2004; MACEDO, 2005).
12 O terceiro momento do recalque é o retorno do recalcado.Nele encontra-se uma estreita relação entre Psicanálise e neurose, já que no terreno da patologia o retorno do recalcado encontra no sintoma uma forma de expressão (MACEDO, 2005).
13 O retorno do recalcado se faz de forma deformada, distorcida e não como retorno do mesmo, de maneira idêntica. O que retorna, o faz criando um compromisso entre os sistemas consciente/pré-consciente e inconsciente. Deste modo, o desejo recalcado encontrará uma expressão consciente, ao mesmo tempo em que não produzirá desprazer (GARCIA-ROZA, 2004).
14 Histerias Na histeria verifica-se que a divisão da consciência não é o fator característico, mas sim a capacidade de conversão, ou seja, “predisposição psicofísica para transpor enormes somas de excitação para a inervação somática” (FREUD, 1894, p. 57). Assim, a representação incompatível é transformada incipiente não sendo mais necessária associação alguma. Ao lhe retirar o afeto, este é transposto para o corpo (somático) ou para alguma parte dele.
15 Neurose Obsessiva Quando um sujeito não utiliza o mecanismo de conversão, outra possibilidade necessita configurar-se para poder, de alguma maneira, também rechaçar a representação incompatível e separá-la de seu afeto, já que este permanece no psiquismo. Freud (1894) refere que a representação, ainda que enfraquecida, se mantém na consciência e separada de qualquer associação. Entretanto, “seu afeto, tornado livre, liga-se a outras representações que não são incompatíveis em si mesmas e, graças a essa ‘falsa ligação’, tais representações se transformam em representações obsessivas” (p. 59).
16 Fobias Ao apresentar a fobia e a obsessão, Freud (1894-5) faz uma distinção entre elas. Afirma que em toda obsessão encontrar-se-á um representação que se impõe ao sujeito e um estado emocional associado que pode ser de angústia, remorso, raiva e/ou dúvida. Ao passo que na fobia, esse estado emocional é sempre de angústia, de medo, que não deriva de qualquer lembrança. Nas fobias não se evidencia uma representação incompatível substituída, mas apenas o estado emocional de angústia, que por uma espécie de processo seletivo, traz à tona todas as representações adequadas para se tornarem alvo de uma fobia.
17 Psicose Freud apresenta outra defesa muito mais poderosa e bem-sucedida, entretanto, a partir desse ponto a psicose entra em cena. Nesse tipo de defesa, o eu desestima/recusa (verwerfung) a representação incompatível/insuportável juntamente com seu afeto e se comporta como se a representação jamais tivesse existido. Assim, o rompimento efetuado pelo Eu com a representação incompatível, faz com que “esta fique inseparavelmente ligada a um fragmento de realidade, de modo que, à medida que o eu obtém esse resultado, também se desliga, total e parcialmente, da realidade” (FREUD, 1894, p. 65).
18 Confusão alucinatóriaEsse desligamento é a condição para que as representações recebam a vividez das alucinações e este estado é denominado de confusão alucinatória.
19 Segundo Freud, o mecanismo que caracteriza as psicoses é verwerfung que pode ser traduzida por descartar, não aceitar, considerar inadequado levando em consideração as conotações de foco no descarte e na eliminação (HANS, 1996). Verwerfung vem do verbo verwerfen que significa rejeitar e forcluir. Freud utilizou essa terminologia referindo-se a um tipo de recusa arcaica no sentido de expulsão, de eliminação da ideia de castração. A Verwerfung “consistiria em rejeitar ao nível do processo primário algo que deveria ser simbolizado” (HANS, 1996, p. 374).
20 “Neurose e Psicose”, Freud (1924)assinala a diferença básica entre neurose e psicose, identificando onde se encontra em cada uma o ponto de conflito. “A neurose seria o resultado de um conflito entre o eu e o id, ao passo que; A psicose seria o resultado de uma perturbação nas relações que o eu mantém com o mundo externo” (p95).
21 Psicose O eu, na psicose, cria onipotentemente um novo mundo externo e interno. Assim, dois aspectos ficam claros: primeiro, esse novo mundo é erguido conforme os desejos do id e, segundo, a razão para a demolição do mundo externo são os duros impedimentos que a realidade impõe à satisfação do desejo, pois o psicótico sente tais impedimentos como intoleráveis (p. 97).
22 Embora Freud faça inúmeras distinções entre neurose e psicose, ressalta que airrupção tanto de uma quanto da outra patologia deve-se a mesma etiologia: a privação. Ou seja, “a não-realização de algum daqueles desejos da infância, sempre indomáveis e tão profundamente enraizados na nossa organização psíquica, filogeneticamente predeterminada” (p. 97).
23 Dessa forma, o desencadear para a neurose ou para uma psicose dependerá do posicionamento do eu diante dessa privação. Se diante de uma situação tensional originária de um conflito ele permanecerá fiel à realidade externa e tentando, de alguma forma, silenciar o id; ou, se o eu se deixa dominar pelo id e desprende-se da realidade. Dessa forma, Freud concebe então que na neurose há uma preservação da realidade e na psicose, a perda da realidade estaria colocada de antemão
24 Com a observação clínica, Freud (1924) avalia que essa concepção da perda da realidade na psicose e na neurose apresenta um contradição. Considera, então, que de todas as maneiras em ambas há uma perturbação da relação do sujeito com a realidade, sendo diferente a forma com que a relação com essa perda é encarada na neurose e na psicose.
25 “Na neurose, a fuga é utilizada para evitar uma parte da realidade, na psicose essa parte éreconstruída ... a neurose não renega a realidade, ela somente não quer tomar conhecimento dela; a psicose renega-a e procura substituí-la” (p ).
26 A neurose e a psicose são apresentadas por Freud (1924) como divididas em dois tempos.O primeiro tempo da neurose está relacionado ao afrouxamento da relação com a realidade, e quando se armam os processos que objetivam uma compensação pela parte danificada do id se instaura o segundo momento, ou seja, quando se estabelece o recalque, mas também seu fracasso. Assim, a neurose resultaria de um recalque fracassado. Já na psicose, na primeira fase, o eu é arrastado para longe da realidade e, em seguida, para reparar o dano, restabelecer-se-ia uma nova relação com a realidade à custa do id. A segunda fase se caracterizaria por uma reparação. Sendo assim, para Freud, tanto a neurose como a psicose na segunda fase possuem as mesmas tendências anunciadas pela rebelião do id contra o mundo externo, expressando seu desprazer e sua incapacidade de se moldar à real necessidade.
27 A psicanálise identificou que há um afrouxamento da realidade tanto na psicosecomo na neurose. A diferenciação percebida aparece no desfecho que envolve cada um desses processos de constituição subjetiva do aparelho psíquico e na relação que o sujeito estabelece com a realidade exterior. A psicose utilizará como saída o delírio e a alucinação e a neurose, por sua vez, se valerá da fantasia.
28 FREUD, Sigmund. (1916). Conferências Introdutórias XXVII: Transferência. In: EdiçãoStandard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. ______. (1894). As neuropsicoses de defesa. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. ______. (1896). Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa. In: Edição ______. (1900). A interpretação dos sonhos. In: Edição Standard Brasileira das Obras ______. (1924). A perda da realidade na neurose e na psicose. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. III.
29 (1924). Neurose e Psicose. In: Edição Standard Brasileira das Obras PsicológicasCompletas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. III. ______. (1915). O recalque. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. I. HANS, Luiz A. Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário de Psicanálise. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
30 Fim
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