1 Basílio da Gama ( ) O Uraguay 1769
2 Assim quem olha do escarpado cume 30Não vê mais do que o Céu, que o mais lhe encobre A tarda, e fria névoa, escura, e densa. Mas quando o Sol de lá do eterno, e fixo Purpúreo encosto do dourado assento, Co’a criadora mão desfaz, e corre O véu cinzento de ondeadas nuvens, Que alegre cena para os olhos! (Canto Quarto)
3 Co’a chata frente de Urucú tingida,Vinha o Índio Kobbé disforme, e feio, Que sustenta nas mãos pesada maça, Com que abate no campo os inimigos. [...] O mancebo Pindó, que sucedera A Sepé no lugar: inda em memória Do não vingado irmão, que tanto amava, Leva negros penachos na cabeça. São vermelhas as outras penas todas, Cor, que Sepé usara sempre em guerra Vão com ele os seus Tapes, que se afrontam, E que têm por injúria morrer velhos. Segue-se Caitutú de Régio sangue, E de Lindóia irmão. Não muito fortes São os que ele conduz; mas são tão destros No exercício da frecha, que arrebatam Ao verde papagaio o curvo bico, Voando pelo ar. [...] (Canto Quarto)
4 “... a ação dos frecheiros, evidenciada pelo encurvamento sugerido no sintagma ‘curvo bico’ e no verbo ‘voar’, que evocam a curvatura do arco, o voo da ave e a trajetória da seta, com apoio de tudo no fonema ‘v’.” (Antonio Candido, “A dois século d’O Uraguay”, Vários escritos, p.205)
5 Esta foi de Cacambo a esquadra antiga. 92Penas da cor do Céu trazem vestidas, Com cintas amarelas... [...] Entrou na grande Praça derradeiro Tatú Guaçú feroz, e vem guiando Tropel confuso de cavaleria, Que combate desordenadamente, Trazem lanças nas mãos, e lhes defendem Peles de monstros os seguros peitos (Canto Quarto)
6 Revia-se em Baldetta o santo Padre; 110E fazendo profunda reverência, Fora da grande porta recebia O esperado Tedêo ativo, e pronto, A quem acompanhava vagaroso Com as chaves no cinto o Irmão Patusca, De pesada, enormíssima barriga. Jamais a este o som da dura guerra Tinha tirado as horas de descanso. De indulgente moral, e brando peito, Que penetrado da fraqueza humana Sofre em paz as delícias desta vida, Tais, e quais no-las dão. [...] (Canto Quarto)
7 E a irmã por entre as sombras do arvoredo 142Busca co’a vista, e teme de encontrá-la (Canto Quarto)
8 Entram enfim na mais remota, e internaParte de antigo bosque, escuro, e negro, Onde ao pé de uma lapa cavernosa Cobre uma rouca fonte, que murmura, Curva latada de jasmins, e rosas. Este lugar delicioso, e triste, Cansada de viver, tinha escolhido Para morrer a mísera Lindóia. Lá reclinada, como que dormia, Na branda relva, e nas mimosas flores, Tinha a face na mão, e a mão no tronco De um fúnebre cipreste, que espalhava Melancólica sombra. Mais de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente, e lhe passeia, e cinge Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio (Canto Quarto)
9 Tanto era bela no seu rosto a morte! 197Morte bella parea nel suo bel viso. (Petrarca, “Triunfo da morte”)
10 Inda conserva o pálido semblanteUm não sei quê de magoado, e triste, Que os corações mais duros enternece. Tanto era bela no seu rosto a morte (Canto Quarto)
11 Pintado o rosto do temor da morte(Canto Terceiro; v. 53) Os olhos em que amor reinava, um dia, Cheios de morte... (Canto Quarto; v )
12 Entram [os portugueses] no grande Templo, e vêem por terraAs imagens sagradas. O áureo trono, O trono, em que se adora um Deus imenso, Que o sofre, e não castiga os temerários, Em pedaços ao chão. Voltava os olhos Turbado o General: aquela vista Lhe encheu o peito de ira, e os olhos d’água (Canto Quarto)
13 Lobo voraz, que vai na sombra escuraMeditando traições ao manso gado, Perseguido dos cães, e descoberto Não arde em tanta cólera, como ardem Balda, e Tedêo. [...] (Canto Quinto)
14 A soldadesca alegre Cerca em roda o fleugmático Patusca, Que próvido de longe os acompanha, E mal se move no jumento tardo. Pendem-lhe dos arções de uma lado, e de outro Os paios saborosos, e os vermelhos Presuntos Europeus; e a tiracolo Inseparável companhia antiga De seus caminhos a borracha pende (Canto Quinto)
15 Serás lido Uraguay. Cubra meus olhos 140Embora um dia a escura noite eterna. Tu vive, e goza a luz serena, e pura. Vai aos bosques de Arcádia: e não receies Chegar desconhecido àquela areia (Canto Quinto)
16 “O assunto [do poema] é a expedição mista de portugueses e espanhóis contra as missões jesuíticas do Rio Grande, para executar as cláusulas do Tratado de Madri, em 1756; a intenção ostensiva, fazer um panfleto antijesuítico para conciliar as graças de Pombal. A análise revela, todavia, que também outros intuitos animavam o poeta, notadamente descrever o conflito entre a ordenação racional da Europa e o primitivismo do índio. [...] sentimos a cada passo certa indecisão entre ambos, como se o encantamento pelo pitoresco levasse o poeta a lamentar intimamente a ruptura do ritmo agreste pela civilidade imposta. Tanto assim que não conseguiu esconder a simpatia pelo vencido, pois tem-se a impressão de que prefere o elemento mais débil, plasticamente mais rico e colorido, revelando deste modo evidente predomínio da sensibilidade sobre os propósitos racionais.” (Antonio Candido, Formação da literatura brasileira, vol. 1, p.128)
17 “O Uraguai é belo e mal composto“O Uraguai é belo e mal composto.” (Antonio Candido, “A dois séculos d’O Uraguai”, Vários escritos, p.198)
18 “A liberdade é tida como um dom natural e divino que o selvagem recebeu dos ancestrais e protesta legar aos descendentes; no entanto, ela não poderá mais exercer-se plenamente, pois o índio que caiu no regime colonial deverá, por força, aceitar o controle do Estado conquistador (a tutela pombalina), que lhe é apresentado como alternativa única à sua condição de missioneiro.” (Alfredo Bosi, “As sombras das luzes na condição colonial”, Literatura e resistência, p.98)
19 “Como bom poeta do Antigo Regime, Basílio da Gama soube converter política em poesia. [...] Assim, o artista apropria-se do discurso doutrinário instituído pela campanha pombalina, incorporando-o à estrutura imaginosa da fábula de seu texto. Por essa perspectiva, o assunto de O Uraguai não será propriamente a Guerra Guaranítica, mas uma versão política dessa guerra. Tal versão envolve o elogio do governo ilustrado e a denúncia da catequese jesuítica. Por outro lado, inclui também a tópica do encanto pelo índio americano, associado ao projeto de extraí-lo da tutela da Igreja para o integrar aos domínios do Estado.” (Ivan Teixeira, “O Uraguai: diatribe contra o regicídio e contra a monarcomaquia”, Épicos, p.182)
20 Queria dar Lindóia por esposa 57Ao seu Baldetta, e segurar-lhe o posto, E a Régia autoridade de Cacambo (Canto Quarto)
21 “Embora possam parecer, nenhuma das noções veiculadas pelos índios serão verdades reveladas. Pela lógica do poema, trata-se, ao contrário, de convicções históricas incutidas neles pelos ensinamentos dos jesuítas, codificadas na célebres ‘Instruções’, redigidas em guarani e que, pela ficção do poema, os índios seguiam à risca.” (Ivan Teixeira, “O Uraguai: diatribe contra o regicídio e contra a monarcomaquia”, Épicos, p.169)