1 Bruno Ratusznei Fonseca Universidade Positivo Imunologia - 2009O SISTEMA COMPLEMENTO Bruno Ratusznei Fonseca Universidade Positivo Imunologia
2 O SISTEMA COMPLEMENTO Sistema de proteínas séricas e de superfície celular que interagem entre si e outras moléculas do sistema imunológico de maneira altamente regulada, para gerar produtos que eliminem os microorganismos. Um dos principais mecanismos efetores da imunidade humoral e inata; Proteínas normalmente inativas no plasma, e ativadas geram produtos que medeiam as funções efetoras do complemento. Descoberta - Jules Bordet, 1895.
3 ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOEnvolve: Proteólise seqüencial de proteínas para gerar complexos enzimáticos com atividade proteolítica; Ligação covalente dos produtos da ativação do complemento às superfícies das células microbianas ou a anticorpos ligados a microorganismos e a outros antígenos; Inibição, por proteínas reguladoras, da ativação do complemento. Essas proteínas reguladoras estão presentes nas células do hospedeiro, onde minimizam o dano mediado pelo complemento às células do mesmo, e ausentes nos microorganismos.
4 VIAS DE ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOTrês vias principais de ativação do complemento: Via clássica; *imunidade humoral adquirida. Via alternativa; Via da lectina *imunidade inata *Embora difiram na forma como são iniciadas, todas resultam na formação de complexos enzimáticos responsáveis pela proteólise da proteína C3, o evento central na ativação do complemento.
5 VIAS DE ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOA VIA ALTERNATIVA Ativada nas superfícies das células microbianas na ausência de anticorpos; Proteólise de C3, gerando C3b, que se liga às superfícies microbianas; C3b sofre alteração conformacional, perde domínio tioéster, expondo local para ligação do fator B; Fator B é clivado por fator D, liberando fragmento Bb; Fragmento Bb se liga à C3b, formando o complexo C3bBb (convertase C3 da via alternativa).
6 VIAS DE ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOA VIA ALTERNATIVA Moléculas C3b geradas pela convertase C3 se ligam à própria convertase, resultando na formação de um complexo protéico com uma porção Bb ligado à duas moléculas C3b (convertase C5 da via alternativa). A convertase C5 da via alternativa cliva C5, iniciando as etapas tardias da ativação do complemento.
7 VIAS DE ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOA VIA CLÁSSICA Iniciada pela ligação de C1 às moléculas de IgG e IgM que se ligaram ao antígeno; C1 é complexo protéico composto de subunidades C1q (que se liga ao anticorpo), C1r e C1s (proteases); Subunidade C1q se liga às regiões Fcµ e γ da Ig para C1 ser ativada; C1 ativada cliva C4, para gerar C4b. C4 é homólogo a C3, e C4b possui uma ponte tioéster interna, como o C3b;
8 VIAS DE ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOA VIA CLÁSSICA C2 se complexa com C4b, e é clivada por uma molécula C1 vizinha, formando um fragmento C2a, que se associa ao C4b; O complexo C4b2b é a convertase C3 da via clássica; *SIGN R1 – forma variante incomum anticorpo-independente de ativação da via clássica.
9 VIAS DE ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOA VIA DA LECTINA Ativada na ausência de anticorpo; Iniciada pela ligação de polissacarí- deos microbianos a lectinas circulantes. ex: lectina de ligação à manose plasmática (MBL); MBL se liga à serinas proteases associadas à MBL (MASPs); Lectinas estruturalmente semelhantes a C1q, e clivam C4 e C2. As demais etapas são as mesmas da via clássica.
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11 ETAPAS TARDIAS DA ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOAs convertases C5 geradas pelas vias alternativa, clássica ou da lectina, iniciam a ativação dos últimos componentes do sistema complemento, culminando na formação do complexo de ataque citocida à membrana (MAC); As convertases C5 clivam o C5, liberando um fragmento C5b, que permanece ligado às proteínas do complemento na superfície celular; Os demais componentes do complemento (C6, C7, C8 e C9) são proteínas estruturalmente relacionadas, sem atividade enzimática.
12 ETAPAS TARDIAS DA ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOO C5b se liga em cascata a C6 e C7, formando o complexo C5b,6,7; O componente C7 do complexo é hidrofóbico, e se insere na membrana celular, se tornando um receptor para uma molécula C8; Uma cadeia de C8 se liga a C5b,6,7, e a outra cadeia se insere na membrana. O complexo C5b,6,7,8 fica assim inserido de forma estável na membrana (C5b-8), porém possui capacidade limitada de lisar a célula; A formação de um MAC só é alcançado pela ligação de C9 ao complexo. C9 se polimeriza no local de ligação de C5b-8, formando poros na membrana; Os poros formados permitem a passagem de água e íons, resultando em edema osmótico e ruptura da célula.
13 RECEPTORES DAS PROTEÍNAS DO COMPLEMENTOReceptor de complemento tipo 1 (CR1) Receptor de alta afinidade para C3b e C4b, promovendo a fagocitose de partículas recobertas por essas proteínas, e a eliminação de complexos imunes da circulação; Principalmente em células sanguíneas – eritrócitos, neutrófilos, monócitos, eosinófilos e linfócitos T e B, mas também em células dendríticas foliculares nos folículos dos órgãos linfóides periféricos; Receptor de complemento tipo 2 (CR2) Presente nos linfócitos B, células dendríticas foliculares e algumas células epiteliais; Se liga aos produtos de clivagem de C3b. Estimula as respostas imunológicas humorais por acentuar a ativação das células B pelos antígenos, e por promover a captação dos complexos antígeno- anticorpo nos centros germinativos. *No ser humano o CR2 é o receptor de superfície celular para o vírus Epstein-Barr, que infecta células B.
14 RECEPTORES DAS PROTEÍNAS DO COMPLEMENTOReceptor de complemento tipo 3, ou Mac-1 (CR3) Expresso em neutrófilos, fagócitos mononucleares, mastócitos e células NK; Integrina que funciona como receptor para fragmento da proteólise de C3b: nos neutrófilos e mastócitos promove a fagocitose de microorganismos opsonizados com iC3b; * Pode reconhecer bactérias diretamente para fagocitose pela ligação a algumas moléculas microbianas desconhecidas, e se ligar à molécula de adesão intercelular-1 (ICAM-1) nas células endoteliais, promovendo a ligação de leucócitos ao endotélio, mesmo sem a ativação do complemento. Receptor de complemento tipo 4 (CR4) Integrina que se liga a iC3b. Têm função similar à do Mac-1; Em células dendríticas.
15 RECEPTORES DAS PROTEÍNAS DO COMPLEMENTOReceptor de complemento da família imunoglobulina (CRIg) Expresso na superfície de macrófagos no fígado (células de Kupffer), que fazem a remoção de bactérias opsonizadas e outros patógenos transportados pelo sangue; Proteína de membrana com região extracelular constituída de domínios Ig, que se liga a fragmentos de C3b; SIGN-R1 É uma lectina da superfície celular de macrófagos de zona marginal, que reconhece polissacarídeos pneumocócicos, contribuindo para a opsonização e remoção de pneumococos. Também liga C1q, mediando dessa forma a ativação eficiente da via clássica do complemento de uma maneira independente do anticorpo.
16 REGULAÇÃO DA ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOAs reações em cascata do complemento, assim como a estabilidade das proteínas ativas, são reguladas para evitar danos às células do hospedeiro e limitar a duração da ação do complemento, mesmo em células microbianas e complexos antígeno-anticorpo. Proteínas Reguladoras da Atividade do Complemento (RCA)– família de proteínas circulantes e de membrana, bem como várias proteínas das vias clássica e alternativa; Inibem a formação das convertases C3, e quebram e inativam as convertases C3 e C5, inibindo a formação de MAC.
17 REGULAÇÃO DA ATIVAÇÃO DO COMPLEMENTOInibidor de C1 (C1 INH) Inibe irreversivelmente a ação enzimática de C1r e C1s; Inibidores do complexamento dos componentes da convertase C3 Uma série de proteínas, entre elas MCP, CR1, DAF, fator H e C4BP, se ligam à C3b e C4b, inibindo competitivamente a ligação de outros componentes da convertase C3 a eles, tais como Bb da via alternativa e C2b da via clássica, bloqueando dessa forma a progressão adicional da cascata do complemento; Degradação proteolítica de C3b e C4b pelo fator I MCP, CR1, DAF, fator H e C4BP funcionam como co-fatores para a serina protease fator I, que cliva C3b e C4b, inativando-os; Inibidores da formação de MAC A formação de MAC é inibida por uma proteína de membrana denominada CD59, expressa em muitos tipos celulares. Esta proteína se incorpora no complexo MAC após a inserção de C5b-8 na membrana, impedindo a ligação de C9 ao mesmo.
18 FUNÇÕES DO COMPLEMENTOOpsonização e Fagocitose C3b e iC3b se ligam covalentemente aos microorganismos, atuando como opsoninas, pois se ligam especificamente aos receptores dos macrófagos e neutrófilos. C3b e C4b se ligam ao CR1, e o iC3b se liga ao CR3 (Mac-1) e ao CR4. Estimulação das Respostas Inflamatórias Os fragmentos proteolíticos do complemento C5a, C4a e C3a induzem a inflamação aguda pela ativação dos mastócitos e neutrófilos. Há, contudo, receptores para C5a também em eosinófilos, basófilos, monócitos, macrófagos, células musculares lisas, células epiteliais e astrócitos; Esses peptídeos se ligam aos mastócitos induzindo a desgranulação, com liberação de mediadores vasoativos (anafilatoxinas), e no neutrófilo, o C5a estimula a motilidade e a adesão a células endoteliais. O C5a também pode agir diretamente sobre o endotélio, levando ao aumento da permeabilidade vascular e à expressão de selectina-P, a qual promove a ligação de neutrófilos. Citólise Mediada pelo Complemento A lise de microorganismos é intermediada pelo MAC.
19 OUTRAS FUNÇÕES DO COMPLEMENTOAs proteínas do complemento se ligam a complexos antígeno-anticorpo, promovendo a solubilização desses complexos e sua eliminação pelos fagócitos; A proteína C3d, fragmento de C3, se liga ao CR2 nas células B, facilitando a ativação das células B e a iniciação das respostas imunes humorais.
20 DEFICIÊNCIAS DO COMPLEMENTODEFICIÊNCIAS DO COMPLEMENTO Deficiências do complemento e doença Via/Componente Doença Mecanismo Via Clássica C1INH Angioedema hereditário Superprodução de C2b (procinina) C1, C2, C4 Predisposição ao SLE Opsonização de complexos imunes ajuda a mantê-los solúveis, a deficiência resulta no aumento da precipitação em tecidos e inflamação Via da Lectina MBL Susceptibilidade a infecções bacterianas em bebês ou imunodeprimidos Inabilidade de iniciar a via da lectina Via Alternativa Fatores B ou D Susceptibilidade a infecções bacterianas piogênicas (formadoras de pus) Insuficiência de opsonização da bactéria C3 Susceptibilidade a infecções bacterianas Ausência de opsonização e inabilidade de utilizar a via do ataque à membrana C5, C6, C7 C8, e C9 Susceptibilidade a infecções Gram-negativas Incapacidade de atacar a membrana externa de bactéria Gram-negativa Properdina (ligada ao X) Susceptibilidade a meningite meningocócica Ausência de opsonização da bactéria Fatores H ou I Deficiência de C3 e susceptibilidade a infecções bacterianas Ativação descontrolada de C3 pela via alternativa em depleção de C3
21 EVASÃO DO COMPLEMENTO PELOS MICROORGANISMOSOs patógenos desenvolveram diferentes mecanismos para evadirem do sistema do complemento. Entre os mecanismos empregados estão: Expressão de paredes celulares espessas por alguns microorganismos, como bactérias Gram-positivas e fungos, que impede a ligação de proteínas do complemento; Recrutamento de proteínas reguladoras do complemento do hospedeiro por micróbios, como meio de evadir do sistema do complemento; Produção de proteínas específicas por vários patógenos, que simulam proteínas reguladoras do complemento humano; Inibição da inflamação mediada pelo complemento pelos produtos de genes microbianos.
22 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS1. ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; SHIV, P. Imunologia Celular e Molecular. Editora Elsevier. 6° edição. Rio de Janeiro, 2008. 2. PARHAM, P. O Sistema Imune. Editora Artmed. 1° edição. Porto Alegre, 2001. 3. STITES, D. P.; TERR, A. I.; PARSLOW, T. G. Imunologia Médica. Editora Guanabara Koogan. 9° edição. Rio de Janeiro, 2000.