Cadeias Globais de Valor –Governança

1 Cadeias Globais de Valor –GovernançaRonaldo Fiani Insti...
Author: Ana Lívia de Caminha Fonseca
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1 Cadeias Globais de Valor –GovernançaRonaldo Fiani Instituto de Economia da UFRJ

2 Referência A referência fundamental será:GEREFFI, Gary; HUMPHREY, John; STURGEON, Timothy. The Governance of global value chains. Review of international political economy, vol. 12, n. 1, p , fev

3 As mudanças na produção global na virada do séculoOs autores iniciam destacando dois aspectos da economia contemporânea: 1) A globalização da produção e do comércio;

4 As mudanças na produção global na virada do séculoEssa globalização teria desenvolvido as “capacitações industriais” (industrial capabilities) em vários países em desenvolvimento. Essas capacitações industriais, conforme vimos ao longo do curso, se localizam nas atividades mais tradicionais, fortemente competitivas.

5 As mudanças na produção global na virada do século2) desintegração vertical das corporações multinacionais.

6 As mudanças na produção global na virada do séculoEssa desintegração vertical teria resultado de uma redefinição das suas competências centrais em inovação, estratégia de produto, marketing e outras atividades de elevado valor agregado.

7 As mudanças na produção global na virada do séculoEssas atividades, embora os autores não mencionem, são aquelas que apresentam maiores barreiras à entrada e assim maiores margens de lucro, permitindo uma maior apropriação do excedente,

8 O Conceito de Cadeias Globais de ValorMas como surgiram modernas CGV? Aqui precisamos fazer uma rápida revisão histórica, que a referência não faz.

9 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisNo final do século XX houve uma transformação nas grandes empresas industriais, que produziu um novo tipo de CGV. O entendimento desta mudança é essencial para se compreender os aspectos que mencionamos anteriormente.

10 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisDesde o final do século XIX até os anos 1980, o perfil das grandes empresas internacionais se manteve basicamente o mesmo.

11 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisNaquele período, a empresa moderna tinha um modelo consolidado: ela era essencialmente “chandleriana” (referência ao historiador de empresas Alfred Chandler Jr.): operava em grande escala e verticalmente integrada.

12 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisA grande empresa internacional se caracterizava por linhas de produção em massa, visando a realizar todas as economias de escala possíveis, tanto na produção como na distribuição. Essas linhas de produção em massa se concentravam essencialmente dentro de um mesmo país.

13 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisA produção em grande escala e a realização destas economias de escala exigia um afluxo ininterrupto de matérias-primas e peças para a montagem.

14 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisPara evitar que descontinuidades no fornecimento de insumos – provocadas por conflitos com fornecedores, i. e, custos de transação – prejudicassem a realização de economias de escala, a empresa chandleriana integrava verticalmente etapas do processo produtivo.

15 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisA política de desenvolvimento industrial nos países menos desenvolvidos privilegiou em sua maior parte, coerentemente, a atração de investimento direto estrangeiro, empréstimos a taxas de juros subsidiadas e proteção tarifária.

16 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisTratava-se de (1) garantir a oferta de capital (com a atração de investimento direto estrangeiro e empréstimos a taxas de juros subsidiadas) para a constituição das etapas produtivas fundamentais no território do país; e

17 A Mudança Global nas Grandes Empresas Internacionais(2) Gerar uma demanda suficientemente grande (via proteção tarifária) para viabilizar empreendimentos em grande escala.

18 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisMas os anos 1990, com a integração econômica da Ásia à economia global, alteraram esse quadro.

19 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisA abertura econômica da China comunista abriu perspectivas inéditas de aumento de lucratividade pela redução de custos de insumos produzidos com tecnologias mais tradicionais (competitivas) e pela oferta de extensos mercados consumidores (mesmo sendo um país pobre).

20 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisVale destacar que, longe de um mecanismo automático de convergência ou catching up, o que aconteceu foi uma radical inflexão política chinesa.

21 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisEspecificamente as perspectivas de aumento de lucratividade se baseavam nas possibilidades de drásticas quedas nos preços desses insumos, provocadas por: a) Exploração de expressivas economias de escala na produção e na distribuição, a partir do mercado chinês;

22 A Mudança Global nas Grandes Empresas Internacionaisb) Exploração de mão de obra mais barata.

23 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisIsso motivou a desverticalização das atividades com menor valor agregado para empresas na China e em Taiwan, em seguida em Hong Kong, Tailândia, Malásia, Singapura, Índia e no Paquistão. Hoje o movimento se estende para o Camboja e o Vietnã.

24 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisAo mesmo tempo, colocou a competitividade das demais regiões dos países em desenvolvimento em xeque.

25 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisEsses países não dispunham das economias de escala na produção e distribuição de que a economia chinesa desfrutava, seus custos de mão de obra eram mais elevados e seus mercados consumidores mais limitados (e nem dispunham mais dos mecanismos de proteção pré-OMC).

26 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisNão é de se surpreender que A. Latina e África tenham estagnado e até regredido, enquanto que a Ásia crescia, conforme vimos em Nayyar.

27 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisDesse modo, os autores têm razão ao afirmarem que: The evolution of global-scale industrial organization affects not only the fortunes of firms and the structure of industries, but also how and why countries advance – or fail do advance –in the global economy. (p. 79)

28 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisEm outras palavras, as cadeias globais de valor são determinantes na definição de quem fica no Centro e quem fica na Periferia (ou Semiperiferia).

29 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisNão é de surpreender, portanto, que um dos formuladores pioneiros do conceito seja Wallerstein, sob a denominação de cadeias globais de mercadorias (global commodity chains).

30 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisUm termo hoje largamente suplantado por cadeias globais de valor, ao reconhecer que não apenas as mercadorias mas também os serviços são parte importante da cadeia. Mas o que é uma cadeia global de valor?

31 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisPodemos adotar a definição de Kogut, citado pelos autores: ... the process by which technology is combined with material and labor inputs, and then processed inputs are assembled, marketed, and distributed. A single firm may consist of only one link in this process, or it may be extensively vertically integrated... (p. 79).

32 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisOs pontos a serem destacados são dois: Em primeiro lugar, a cadeia global de valor não inclui apenas as atividades produtivas em si, mas também a distribuição e a comercialização. O mercado consumidor é o elo final da cadeia.

33 A Mudança Global nas Grandes Empresas InternacionaisEm segundo lugar, ela pode ser mais ou menos verticalmente integrada. Não há uma definição a priori.

34 A Governança das CGV O movimento das grandes empresas internacionais de delegar as etapas de menor valor agregado – que envolvem tecnologias tradicionais – para empresas em países em desenvolvimento produziu uma variedade de formas de governança.

35 A Governança das CGV Isso afetou não apenas o destino das empresas e das estruturas industriais, mas também como os países avançam ou não, na economia mundial.

36 A Governança das CGV Um primeiro elemento para entender isso são os custos de transação. Relações de mercado convencionais são adequadas quando os ativos não são específicos: sua padronização ao mesmo tempo facilita a especificação ex ante no contrato e a exploração de economias de escala.

37 A Governança das CGV O oposto acontece quando os ativos são específicos, especialmente quando há incerteza sobre as circunstâncias futuras da transação.

38 A Governança das CGV Neste caso é difícil especificar ex ante no contrato todas as condições relevantes, e as possibilidades de explorar economias de escala são limitadas pela especificidade do ativo. Há o risco de atuação oportunista.

39 A Governança das CGV Se os ativos apresentarem elevada especificidade e a incerteza for elevada é mais provável que a empresa internalize a etapa produtiva em questão, evitando os custos de transação.

40 A Governança das CGV Para situações intermediárias é mais provável que seja adotada uma estrutura de governança híbrida entre mercado e hierarquia – que os autores chamam de “rede”(network).

41 A Governança das CGV Ela é híbrida porque as empresas preservam sua independência (como no mercado), mas se submetem às exigência de uma contraparte em determinadas situações (como a divisão de uma empresa).

42 A Governança das CGV Há um outro fator que, segundo os autores pode levar as empresas a delegarem suas funções: capacitações de difícil imitação/superação.

43 A Governança das CGV Embora os autores não desenvolvam adequadamente, trata-se do resultado da combinação de aprender fazendo com conhecimento tácito.

44 A Governança das CGV A partir daí os autores propõem uma tipologia de CGV. Antes disso, é preciso relembrar que um ativo específico é aquele que sofre uma redução significativa no seu valor de revenda (além da depreciação) se for reaplicado em outra atividade, diferente daquela para a qual foi inicialmente planejado.

45 Tipos de CGV Mercado: Não há ativos específicos. Baixo custo para trocar de contraparte. Cadeias modulares: produtos feitos sob especificação dos compradores, prontos para serem utilizados (turnkey), utilizando equipamento com baixa especificidade e ativos dedicados.

46 Tipos de CGV Cadeias relacionais: Dependência mútua e elevado nível de investimento em ativos específicos à relação. Há a necessidade de estruturas específicas para administrar a relação (formais ou informais).

47 Tipos de CGV Cadeias cativas: Pequenos produtores dependentes de grandes compradores. Esses compradores tem elevados custos de mudança em relação aos compradores. Elevado grau de controle e monitoramento pelas grandes empresas. Hierarquia. Integração vertical.

48 Determinantes do tipo da CGVOs autores identificam 3 determinantes do tipo de CGV: a) A complexidade da informação e do conhecimento transferido na transação, com relação ao produto e ao processo de produção.

49 Determinantes do tipo da CGVb) Possibilidade de codificação do produto, sem que haja investimentos em ativos específicos para transmitir informação. c) A capacitação dos produtores.

50 Determinantes da Governança das CGVTipo de Governança Complexidade das Transações Possibilidade de Codificação Capacitação dos Fornecedores Grau de Coordenação e Assimetria de Poder Mercado Baixa Alta Baixo Modular Relacional Cativa Hierarquia Alto

51 Governança das CGV, Periferia e SemiperiferiaEmbora os autores não destaquem o fato, fica evidente que: 1) As cadeias globais no extremo oriente são basicamente do tipo modular ou hierárquica;

52 Governança das CGV, Periferia e Semiperiferia2) As cadeias no restante da Ásia são muitas vezes cativas, assim como em países pobres produtores de bens primários. 3) O problema da ascensão da Periferia e Semiperiferia é escapar das cadeias cativas ou modulares para as cadeias relacionais e hierárquicas.

53 Ronaldo Fiani Muito obrigado