CAMÕES, VINÍCIUS DE MORAES E RENATO RUSSO

1 CAMÕES, VINÍCIUS DE MORAES E RENATO RUSSOO Encontro do ...
Author: Tiago Felgueiras Prada
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1 CAMÕES, VINÍCIUS DE MORAES E RENATO RUSSOO Encontro do classicismo português com o modernismo e O pós-modernismo brasileiroS CAMÕES, VINÍCIUS DE MORAES E RENATO RUSSO Universidade Presbiteriana Mackenzie Doutoranda: Gisele Centenaro | Orientadora: Elaine C. Prado dos Santos

2 Pressupostos HEGEMONIA“Em qualquer sociedade não-totalitária, certas formas culturais predominam sobre outras, do mesmo modo que certas ideias são mais influentes que outras; a forma dessa liderança cultural é o que Gramsci identificou como hegemonia, um conceito indispensável para qualquer entendimento da vida cultural no Ocidente industrial.” (SAÏD, pp )

3 pressupostos INTERTEXTUALIDADE“Todo texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis, sob formas mais ou menos reconhecíveis. A intertextualidade é a maneira real de construção do texto.” (BARTHES apud BRAIT, 2006, pp )

4 pressupostos DIALOGISMOEstudos de Hutcheon caminham em consonância às teorias de Bakhtin, para quem "a questão do interdiscursivo aparece sob o nome de dialogismo". (FIORIN apud BRAIT, 2006, p. 164)

5 pressupostos MITO [...] o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do "princípio" [...] A principal função do mito consiste em revelar os modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas [...] Os mitos, efetivamente, narram não apenas a origem do Mundo, dos animais, das plantas e do homem, mas também de todos os acontecimentos primordiais em consequência dos quais o homem se converteu no que é hoje – um ser mortal, sexuado, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para viver, e trabalhando de acordo com determinadas regras. (ELIADE, 2000, pp ).

6 Corpus da análise A herança literária portuguesa sempre se fez presente ao longo da história da literatura brasileira. Neste análise, primeiramente dois sonetos antológicos são interpretados e comparados para que resgatemos um desses momentos especiais de intertextualidade e polifonia entre um poeta português e um brasileiro – dois literatos consagrados; em seguida, é apresentada a relação de intertextualidade entre ambos e o compositor brasileiro Renato Russo.

7 CAMÕES – LÍRICA Aquela triste e leda madrugada, Cheia toda de mágoa e de piedade, Equanto houver no mundo saudade Quero que seja sempre celebrada. Ela só, quando amena e marchetada Saía, dando ao mundo claridade, Viu apartar-se de uma outra vontade, Que nunca poderá ser apartada. Ela só viu as lágrimas em fio, Que de uns e de outros olhos derivadas, Se acrescentaram em grande e largo rio. Ela ouviu as palavras magoadas Que puderam tornar o fogo frio E dar descanso às almas condenadas.

8 Estilo poético Classicismo português (1527-1580)Soneto com 14 versos decassílabos (dois quartetos e dois tercetos) Rimas interpoladas e alternadas Tema lírico-amoroso Eu lírico narra um conflito por meio de antíteses Triste e leda | fogo frio | descanso e condenadas

9 Estilo poético Metáforas personificam uma madrugada que é espectadora e, ao mesmo tempo símbolo de um conflito Versos melodiosos e ritmados Assonâncias, aliterações, homeoteleutos

10 Imagens simbólicas Narração bíblica da criação do mundo segundo o Gênesis “No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informa e vazia, e as trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas. E Deus disse: Exista a luz. E a luz existiu. E Deus viu que a luz era boa; e separou a luz das trevas. E chamou à luz dia,e às trevas noite. E fez-se tarde e manhã: primeiro dia.” (BÍBLIA SAGRADA, Paulinas, p. 25)

11 IMAGENS SIMBÓLICAS É possível que o poeta, ao descrever a passagem da separação do dia da noite em seu soneto, recortando a madrugada (o amanhecer), tenha se inspirado nesse trecho do Gênesis. Todavia, mesmo que isso não tenha ocorrido, o texto bíblico contribui para a interpretação dos versos. A luz pode ver as trevas assim como a madrugada pode ver a noite enquanto esta desaparece, cedendo-lhe seu espaço. As trevas, contudo, não podem ver a luz, como a noite jamais verá o dia ("Que nunca poderá ver-se apartada") depois de terem sido apartados, porque quando a luz se separa das trevas, dando origem ao dia, a noite perece.

12 Imagens simbólicas Simbolicamente, a luz demanda com frequência os limites das trevas, que, por sua vez, quase sempre representam o não-conhecimento, o embotamento espiritual, o mistério. “Quase todos os princípios fundamentais baseados em uma bipartição do mundo referem-se à oposição entre a luz e as trevas como, por exemplo, yin e yang, anjos e demônios, espírito e matéria, masculino e feminino etc. A concepção de uma ascensão da escuridão para a luz desempenha para muitos povos um importante papel no que se refere à evolução da humanidade e à evolução individual.” (LEXIKON, pp )

13 Imagens mitológicas Aurora – Irmã do Sol e da Lua na mitologia grega. Quando a noite acaba, ela aparecce no horizonte, num carro puxado por cavalos de ouro, anunciando o retorno do Sol. Destino – Filho da Noite na mitologia grega. Obscuro e invisível, ele estende seu domínio sobre homens e deuses. Nem júpiter pode oport-se a suas decisões, pois sendo dono da sabedoria suprema, propaga que, se mudados os desígnios do Destino, será rompida a Ordem do Universo.

14 Clímax do conflito No penúltimo verso, o sujeito lírico intensifica o teor negativo das palavras ouvidas, afirmando que as mesmas tiveram a capacidade de "tornar o fogo frio", utilizando um adjetivo completamente contraditório para qualificar o substantivo fogo, antítese que nos transmite a idéia de que tudo que era ardor, fervor, paixão ou, até mesmo, excitação sexual foi privado do seu calor, ou seja, o sentimento de atração foi transformado em indiferença pela ausêcia, pela separação.

15 EpÍlogo – PARADOXO SEPARAÇÃO E REENCONTRO PELA SAUDADENo último verso fica claro que ocorre a separação, simbolizada por palavras de lamento e tristeza, que puderam dar "descanso às almas condenadas", ou seja, as almas, que normalmente representam a sede de afetos, dos sentimentos e das paixões vividas pelo homem, encontram o sossego, porque deixam de arder pelo desejo de outrem, embora estejam sentenciadas a sofrer pela ausência do ser amado, cultivando apenas a saudade, o que não deixa de ser um paradoxo.

16 Soneto de separação ViníciusDe repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente.

17 Estilo poético Modernismo brasileiro (1922-1945)Soneto com 14 versos (dois quartetos e dois tercetos) Tema lírico-amoroso Rimas interpoladas e alternadas Eu lírico nara um conflito por meio de antítese Riso e pranto | Calma e vento | Próximo e distante

18 Estilo poético Versos melodiosos e ritmadosAssonâncias, aliterações, homeoteleutos Metáforas personificam um encontro e uma separação carnal Realidade concreta e particular

19 #Camões #Vinícius No soneto de Camões, predomina a dimensão espiritualNo soneto de Camões, o Amor pertence ao plano das ideias No soneto de Camões, o platanomismo é evidente No soneto de Vinícius, predomina a dimensão carnal No soneto de Vinícius, o amor pertence ao plano da matéria No soneto de Vinícius, o existencialismo é evidente

20 #CAMÕES+VINÍCIUS Nos sonetos de Camões e Vinícus, predomina o tempo verbal no pretérito perfeito do indicativo Nos sonetos de Camões e Vinícus, opostos são unidos por antíteses Nos sonetos de Camões e Vinícius, a vida é uma aventura errante Nos sonetos de Camões e Vinícius, os sujeitos líricos são solitários Nos sonetos de Camões e Vinícius, imagens simbólicas aludem à natureza

21 #CAMÕES+VINÍCIUS No soneto de Camões, tudo aconteceu durante uma breve madrugada No soneto de Vinícius, tudo aconteceu de repente, não mais que de repente No soneto de Camões e Vinícius, o tempo real é efêmero diante do tempo espiritual, eternizado pela dor da ausência

22 #CAMÕES+VINÍCIUS Camões parte do plano do abstrato, do transcendente, passando pelo pulsar da Natureza, pelas figuras mitológicas, pelo platonismo, para, no final, chegar a uma experiência particular que, mesmo assim, está carregada de hermetismo. Vinícius de Moraes retira, por sua vez, o véu que encobre o prazer físico para descrever com mais realismo – mas com a mesma dose de romantismo e também buscando na Natureza inspiração para suas metáforas – tanto a união como o apartamento de dois corpos e almas apaixonadas.

23 #CAMÕES+VINÍCIUS A mulher e o amor são temas de destaque na poesia de Vinícius de Moraes, que também aborda em suas obras as relações sociais, valorizando o trabalho humano e a conscientização comunitária. O amor e o desconcerto do mundo também estão entre os principais temas abordados na Lírica de Camões.

24 #CAMÕES+VINÍCIUS Ainda em comum, apreendemos, dentre as metáforas poéticas de ambos, composições imagéticas que inspiram a visualização do mar, quando não do mar propriamente dito, de características que o conformam, como a imensidão, a fluidez da água, os mistérios do desconhecido, os segredos ocultos nas profundezas. Assim, somos levados também, por ambos, ao universo da mitologia, percorrendo um trajeto em busca de um inconsciente coletivo para aportar nas belezas e feiúras, consagrações e decepções da chamada alma planetária, em sua religiosidade no sentido de religar ao homem à sua espiritualidade, e dela retirando percepções que nos recolhem, em sentido inverso, às profundezas de nosas almas individuais, traçando, desse modo, um paralelo afetivo e reflexivo entre microcosmos e macrocosmo sob o enfoque da conquista e da perda da felicidade.

25 Monte Castelo - Russo Ainda que eu falasse a língua dos homensAinda que eu falasse a língua dos homens E falasse a língua dos anjos Sem amor eu nada seria É só o amor, é só o amor Que conhece o que é verdade O amor é bom, não quer o mal Não sente inveja ou se envaidece O amor é o fogo que arde sem se ver É ferida que dói e não se sente É um contentamento descontente É dor que desatina sem doer Ainda que eu falasse a língua dos homens E falasse a língua dos anjos Sem amor eu nada seria É um não querer mais que bem querer É solitário andar por entre a gente É um não contentar-se de contente É cuidar que se ganha em se perder É um estar-se preso por vontade É servir a quem vence, o vencedor É um ter com quem nos mata a lealdade Tão contráro a si é o mesmo amor Estou acordado e todos dormem Todos dormem, todos dormem Agora vejo em parte Mas então veremos face a face É só o amor, é só o amor Que conhece o que é verdade Ainda que eu falasse a língua dos homens E falasse a língua do anjos Sem amor eu nada seria

26 Estilo poético Pós-modernismo (década de 1950 aos dias atuais)Poema com 31 versos livres (5 quartetos, 3 tercetos e 1 epigrama) Rimas interpoladas e alternadas Versos melodiosos e ritmados Assonâncias e aliterações Tema lírico-amoroso

27 Estilo poético Parodia e paráfrase com “Hino à caridade” (capítulo 13 da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, no Novo Testamento) Parodia e paráfrase como o soneto de Camões “Amor é fogo que arde sem se ver” (faltam somente os três últimos versos completos), sendo que no caso do último verso, Russo o reescreve como uma afirmativa, e não como um questionamento Metáforas fazem uma apologia do Amor e do amor

28 Imagens simbólicas Camões e o classicismo portuguêsNovo Testamento (Hino à Caridade) Metafísica do amor Religião do amor Metalinguagem Existencialismo

29 Imagens mitológicas Camões Os anjos bíblicos Eros Afrodite ApoloCassandra

30 Reatualização do paradoxoRusso reatualiza o discurso paradoxal de Camões e Vinícius ao narrar um conflito humano: o não ser sem amor ainda sendo um ser O título de imediato nos faz lembrar da Batalha de Monte Castelo, travada no final da Segunda Guerra Mundial para conter o avanço das tropas alemãs nazistas no norte da Itália, e da qual o exército brasileiro participou (Força Expedicionária Brasileira), tendo 478 baixas entre mortos e feridos. Foram três meses de luta, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, com vitória dos aliados. Todavia, os 31 versos da música não citam a batalha, nem mesmo voltam a fazer referência ao título, isto é, a relação entre o título, o local citado, o momento histórico e a mesangem da canção fica totalmente por conta do leitor ou ouvinte.

31 Reatualização do paradoxoRusso o define o amor como razão da existência humana, mas os versos da canção, ao não firmarem uma relação explícita com o título do poema, parecem denunciar o desamor da guera. A tragédia da guerra é fruto do desamor, mas no poema também é a força do amor que uniu os aliados na batalha de Monte Castelo. União de aliados, de amigos, que mesmo falando em idiomas diferentes, tinham consciência da necessidade de combater o mal propagado pelo inimigo, estando em foco os horrores da desumanidade defendidos pelo nazismo

32 Reatualização do paradoxoNa relação estabelecida, portanto, com a composição imagética de Camões, na qual o do amor é retratado em sua dimensão espiritual, como causador de alegrias e dores pelos efeitos da atração versus repulsão, e na composição imagética de Vinícius de Moraes, na qual o amor é concretizado pela efemeridade do momento de prazer perdido e substituído pela ausência, Renato Russo evoca um cenário de guerra no qual o amor entre aliados combate o desamor do nazismo.

33 Reatualização do paradoxoAo incluir, contudo, as reflexões bíblicas por meio das quais a linguagem é elevada do plano terreno para a dimensão angelical ou, ainda, para a dimensão da música e da poesia, podemos interpretar a concretude pós-moderna dos enunciados poéticos em Monte Castelo também como uma manifestação lírica de repúdio ao desconcerto do mundo por falta de coerência entre o desejo da plenitude do amor, alcançado pelo espírito, e a prática do morrer e do matar por amor, executada em nome de princípios individuais e coletivos, de caráter ético, religioso ou ideológico.

34 #Monte Castelo #Monte dAS OLIVEIRASNão seria Monte Castelo um paradoxo em linguagem poética da pós-modernidade já indicado no título de um poema que, mirando o desconceto do mundo, celebra o amor e, simultanemente, o resgate do classicismo português não tão ingênuo quanto o podem supor os mais românticos?

35 #Monte castelo #Monte das oliveirasAfinal, as palavras de São Paulo no Novo Testamento têm origem nos ensinamentos de Jesus Cristo que, antes de ser crucificado por amor à humanidade, foi traído de modo consciente, não por ingenuidade, entre amgios que amava e pelos quais era amado, no Monte das Oliveiras, numa triste e leda madrugada, de repente, não mais que de repente, o que fez do amigo próximo o distante e da vida, não só para judeus e romanos, uma aventura errante.

36 Bibliografia BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003, 4ª ed. BÍBLIA SAGRADA. São Paulo: Edições Paulinas, 1980, 37ª. BOSI, Alfredo. O ser eo tempo da poesia. São Paulo: Editora Cultrix, 1999 BOSI, Alfreo. Quando o tempo não é dinheiro. In: Idéias Livros. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 13 de janeiro de 1996. BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega – Vol. II. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1986, 25ª ed. CAMÕES, Luís de. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1991, 11ª ed. .

37 bibliografia CASTRO, Consuelo. Dicionário de mitologia greco-romana. São Paulo: Abril Cultural, 1976. ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2016, 6ª ed. HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo – História, teoria e ficção. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991. LEXIKON, Herder. Dicionário de símbolos. São Paulo: Cultrix, 1994, 2ª ed. LOURENÇO, Eduardo. Tempo e poesia. Lisboa: Relógio D'Água. MARTINS, Nilce Sant'Anna. Introdução à estilística. São Paulo: EDUSP, 1989. LAPA, M. Rodrigues. Estilística da língua portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

38 bibliografia MOISÉS, MASSAUD. A literatura portuguesa. São Pulo: Cultrix, 1992, 27ª ed. MORAES, Vinícius. Amor & Poesia – Antologia Poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983, 23ª ed. RUSSO, Renato. Monte Castelo. Disponível em https://www.letras.mus.br/renato russo/176305/. Acesso em 23 de novembro de 2016. SANT'ANNA, Affonso Romano de. O canibalismo amoroso. São Paulo: Brasiliense, 1985, 2ª ed. SARAIVA, A.J.; LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. Portugal: Porto. VÉDRINE, Hélène. As filosofias do Renascimento. Portugal: Europa-América, 2ª ed.