Crônicas Rubem Braga.

1 Crônicas Rubem Braga ...
Author: Ilda Pinto Santos
0 downloads 3 Views

1 Crônicas Rubem Braga

2 Definição do Gênero O que é Crônica?Gênero híbrido, metamórfico, moderno e subversivo. Máquina de Confessar É o universo explicado pela ótica do autor. É a fronteira entre a dissertação e a narração

3 Temática do autor O Porão A naturezaLigação visceral entre o homem e a cidade Desdém do progresso material Casa Transitoriedade do tempo e (im)possibilidade de execução do Carpe Diem) Política: contundente crítica social na qual o controle de um cidadão exercido por outro ou pelo estado é execrado.

4 A inspiração do CronistaBaudelaire – poeta francês que possibilitou o trânsito do materialismo pós-revolução industrial para o subjetivismo nefelibata dos simbolistas, opositores da sequidão capitalista. A obra-prima de Baudelaire é “Flores do Mal”. Para este autor, o poeta é como um albatroz sem asas que cai do céu. Desajeitadamente ele transita entre homens e mercadorias. Assim é o cronista, um inconformado.

5 Objetos concretos da realidade que possibilitam a abstração impressionistaBorboleta amarela Voa indiferente aos carros que passam roncando sobre suas rodas leves Uma esquadra no mar Rouba sua visão do caos, quebra expectativas Lembrança de um quarto de uma moça em Paris Liberdade de amor A mulher que passa Ilumina os olhos do cronista, mas é uma promessa de felicidade ilusória

6 Coletânea O Conde e o Passarinho (1936) Ai de ti, Copacabana (1960)Morro do Isolamento (1944) A Traição das Elegantes (1967) Com a Feb na Itália (1945) Recado de Primavera (1984) Um pé de milho (1948) As Boas Coisas da Vida ? O homem rouco (1949) Uma fada no fronte (1939) A Borboleta Amarela (1957) Um Cartão de Paris (1997) O verão e as mulheres (1957) Comício (Era Vargas)

7 Leitura: O conde e o PassarinhoAcontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque. O Conde Matarazzo é um Conde muito velho, que tem muitas fábricas. Tem também muitas honras. Uma delas consiste em uma preciosa medalhinha de ouro que o Conde exibia à lapela, amarrada a uma fitinha. Era uma condecoração (sem trocadilho). Ora, aconteceu também um passarinho. No parque havia um passarinho. E esses dois personagens – o Conde e o passarinho – foram os únicos da singular história narrada pelo Diário de São Paulo. (...)

8 Ora, o Conde estava passeando e veio o passarinhoOra, o Conde estava passeando e veio o passarinho. O Conde desejou ser que nem o seu patrício, o outro Francisco, o Francisco da Umbria, para conversar com o passarinho. Mas não era aquele, o São Francisco de Assis, era apenas o Conde Francisco Matarazzo. Porém, ficou encantado ao reparar que o passarinho voava para ele. O Conde ergueu as mãos, feito uma criança, feito um santo. Mas não eram mãos de criança nem de santo, eram mãos de Conde industrial. O passarinho desviou e se dirigiu firme para o peito do Conde. Ia bicar seu coração? Não, ele não era um bicho grande de bico forte, não era, por exemplo, um urubu, era apenas um passarinho. Bicou a fitinha, puxou, saiu voando com a fitinha e com a medalha. Em que peito a colocareis, irmão passarinho?

9 Recado ao Senhor 903 "Quem fala aqui é o homem do Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador do prédio, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal - devia ser meia-noite - e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a lei e a polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros.

10 Eu, 1003, me limito a leste pelo 1005, a oeste pelo 1001, ao sul pelo Oceano Atlântico, ao norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão, ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305.

11 Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou". E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela". E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz."

12 Vídeo de Rubem Braga