1 Débora Aparecida Diogo Espíndola¹, Jussara Bittencourt de Sá²CANTARES E CONTARES DE VIDAS EM TRÂNSITO: ESTUDO SOBRE AS NARRATIVAS DA MEMÓRIA DE DESCENDES DE IMIGRANTES DA REGIÃO SUL DE SANTA CATARINA, Linguística, Letras e Artes Débora Aparecida Diogo Espíndola¹, Jussara Bittencourt de Sá² UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA Letras – Língua Portuguesa, Tubarão, Introdução O Brasil é um país constituído por várias culturas. Nossa identidade pode então ser compreendida como culturalmente formada por sentidos cambiantes e contínuos do cotidiano do sujeito. De acordo com Hall, “As identidades culturais são pontos de identificação, os pontos instáveis de identificação ou sutura, feitos no interior dos discursos da cultura e da história” (HALL, 2006, p. 70). No contexto dos vários elementos formadores, das particularidades, observamos as narrativas e histórias deixadas por imigrantes e autóctones. Evidenciamos essas narrativas como cantos e contos de nossa identidade cultural. As narrativas contam aquilo que se tem na memória de um imigrante, mais que isso, a sua lembrança de vida. São essas mesmas lembranças colocadas em cena nas narrativas tanto tecem um panorama da diversidade cultural da nossa região e do país, como também permitem que conheçamos as linhas que desenham as identidades, na medida em que não permanecendo presas no tempo, transitaram e transcendem, criando raízes, deixando marcas por onde passaram e passam. Entretanto, muitas vezes, essas lembranças podem ser esquecidas nas memórias dos seus descendentes. Esse esquecimento pode ocasionar a perda de linhas importantes no desenho da identidade e na preservação do patrimônio cultural, no caso, o imaterial. Entendemos a relevância das narrativas por traduzirem memórias de seus antepassados, mas também de si, do falante, e por nos oportunizar o conhecimento e sentimentos de nossa História . Objetivos Desenvolver pesquisa de campo, através da técnica da história oral, com moradores de municípios da AMUREL- SC, com intuito de registrar narrativas sobre a memória de descendes de imigrantes; Pensar as narrativas como lugar de enunciação de identidades culturais e sociais; Problematizar as concepções sobre as identidades, com intuito de avaliar o papel da linguagem, dos legados étnicos e da história; Complementar pesquisas realizadas no Grupo de Pesquisa “Linguagem, Estética E Processos Culturais” - GRUPEC, cadastrado no CNPq, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem; Estimular acadêmicos à reflexividade, à luz de teorias da linguagem, da literatura, da identidade e da memória. Metodologia A pesquisa possui abordagem qualitativa teve como aporte os pressupostos da pesquisa bibliográfica e da pesquisa de campo. A abordagem qualitativa procura entender um fenômeno específico em profundidade. O trabalho proposto se identifica como estudo de A pesquisa bibliográfica procurou construir o corpus teórico norteador dos estudos do tema. A pesquisa de campo foi desenvolvida de acordo com as etapas. 1) Inicialmente foi efetuada uma pesquisa documental para encontrar algumas linhas da origem e história dos sobrenomes dos alunos, concentrada nos alunos do Curso de Letras – Língua Portuguesa da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). 2) Após obter os resultados, efetuou-se conversa com os alunos, com objetivo de direcioná-los a detectarem, entre seus familiares, os que conheciam narrativas sobre seus antepassados que vieram para o Brasil. 3) Na sequência, foram selecionados dez (10) descendentes, e efetuadas as entrevistas seguindo roteiro com perguntas abertas. As entrevistas foram gravadas por meio do celular. 4) As entrevistas foram transcritas e, na sequência, efetuou-se a análise, considerando os as reflexões teóricas acerca da identidade e memória. Na análise foram apontados elementos que sinalizavam traços da cultura imigrante , suas histórias em trânsito. caso. Resultados A realização da pesquisa permitiu-nos reconhecer traços das etnias que formam a região sul de Santa Catarina. Podemos observar isto com a pesquisa feita com os sobrenomes dos cinquenta e sete (57) alunos do curso de Letras Língua Portuguesa da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). O estudo mostra uma grande diversidade na descendência que transitou dos diferentes continentes. Alguns fragmentos das narrativas: "Meu pai veio para o Brasil com 11 anos de idade. Ele contava que sua condição na Itália era precária (...) Sem permissão de embarcar para o Brasil, ele e mais 60 homens se esconderam dentro de caixotes ate chegar ao navio, estava tudo combinado com marinheiros do navio(...)” “Meu avó veio do norte da Itália de uma região chamada Budoia. Sua situação lá não era das melhores, sem trabalho e sem condições chegou a passar fome (...) Com a chegada de Getúlio Vargas ao poder e a proibição de falar outra língua em público a não ser o português (...) Nessa época meu avó sofreu muito, ele não sabia falar outra língua a não ser o italiano, então com medo de ser preso decidiu não sair mais de casa (...)” “A história da minha avó foi complicada, ela nasceu em uma comunidade indígena ou bugre. Ela conheceu meu avó perto da comunidade, ele era um agricultor e homem 'branco'. Assim a comunidade da minha avó não aceitou a união dos dois. Eles constituíram sua família na região de Pescaria Brava. As raízes indígenas são extremamente fortes até hoje (...) " “Quando meu bisavô veio da Alemanha para o Brasil, ele tinha recém-casado com a minha bisavó (...) Meu bisavó acabou encontrando trabalho na plantação onde existiam muitos imigrantes. Eles foram morar na região de Gravatal, onde construíram nossa família (...)” "Meu avó dizia que um dos grandes sonhos dele era conseguir estudar. Ele morava em uma cidade pequena no sul de Portugal (...) Meu avó sempre disse que não se arrependeu de vir para o Brasil, conseguiu trabalho e estudar e também conheceu minha avó. Eles sempre foram muito apaixonados, lembro dos dias em que sentava aos seus pés ele me contavam histórias de Portugal. Desde que chegou ao Brasil, meu avó não saiu da região de Laguna. " "Meu bisavó saiu da Espanha ainda criança, veio com sua família para o Brasil (...) não teve tanta dificuldade em se adaptar aqui. Cresceu rodeado de outros imigrantes e moradores da região. Assim como sua família ele trabalhou toda a sua vida na lavoura (...) A região de Laguna foi sua escolhida." Conclusões Conhecer as memórias deixadas pelos imigrantes não é apenas importante, mas essencial para entendermos a identidade do Brasil. Essas memórias representam o nosso passado, nossa raiz. Ouvir as narrativas orais dos descendentes dos imigrantes também evidencia como a fala, o contar nos representa. Ao escutá-las percebemos como cada pequena crença que construímos ao longo da vida existe apenas porque nossos descendentes deixaram um pouco de sua memória viva em nossos bisavôs, avós e pais. A identidade cultural está em constante processo, em constante mudança. Nossa identidade cultural preenche os espaços de mediação entre o mundo “interior” e o mundo “exterior”. Quando projetamos as vivências, nossas ou de outrem, percebemos as singularidades (ações individuais de vontade), também internalizamos o mundo exterior (valores, língua.). Nesse intercâmbio construímos nossas identidades. Essas memórias que constituíram nossa própria história, elas estão presentes no dia a dia. Concluímos também que conhecendo as narrativas orais deixadas pelos imigrantes e autóctones, entendemos nossas raízes. Bibliografia GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 2004. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, ISBN ________; SOVIK, Liv. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, p. (Humanitas) ISBN MEIHY, J. C. S. Manual de historia oral. 4ª ed. São Paulo: Loyola MEIHYE, J. C. S. Manual de historia oral. São Paulo: Edusp, 2002. RAUEN, Fábio José. Roteiros de iniciação científica: os primeiros passos da pesquisa científica desde a concepção até a produção e a apresentação. Palhoça: Ed. Unisul, p. (Coleção Linguagens) ISBN Apoio Financeiro: PUIC – Programa Unisul de Iniciação Cientifica.