1 Do amor romântico às suas manifestações patológicasAna Dias Amaral Maria João Peixoto Márcia Mota Sertório Timóteo Isabel Costa Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de São João
2 Eros Do amor romântico às suas manifestações patológicas. 1. DefiniçãoOrigem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão Eros Afrodite (Beleza/Sexualidade)+ Ares (“Guerra”) Amor romântico, não necessita de ter natureza sexual; Apreciação da beleza interior, contemplação do Belo e compreensão da verdade espiritual. Múltiplas, consoante o objecto do amor e a sua finalidade; Pontos em comum: Desejo de possuir o objecto do amor, de se unir com ele; O objecto é considerado pelo indivíduo como bom. No amor romântico, o objecto é o parceiro e a finalidade a manutenção de um vínculo afectivo com esse parceiro;
3 Era Moderna (XV a XVIII)Do amor romântico às suas manifestações patológicas. 2. Origem e evolução Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão Antiguidade (Platão) Amor complementar (procura da alma gémea no outro, ama-o porque precisa dele para superar a imperfeição do Eu) versus Amor autêntico (contemplação do Belo e da Verdade). Idade Média (V a XV) A união matrimonial visando o prazer carnal era considerada pecaminosa; Casamento com intenção procriadora e de união de riquezas, visando a estabilidade da sociedade. Era Moderna (XV a XVIII) Amor passa a ser parte integrante do casamento. Sociedade Moderna Capitalismo e Consumismo: incitação à libertação do desejo para atingir o prazer imediato e parceiro como “um objecto a ter”; Procura narcísica pela atenção e aprovação do parceiro. Platão: Amor complementar: cada indivíduo procura no outro a sua alma gémea , ama-o porque precisa dele para superar a imperfeição do Eu. versus Amor autêntico: o indivíduo contempla o Belo e a Verdade, por forma a libertar-se do sofrimento e conduzir a alma para o Divino. Idade Média (séculos V a XV): A união matrimonial visando o prazer carnal era considerada pecaminosa; Casamento com intenção procriadora e de união de riquezas, visando a estabilidade da sociedade. Idade Moderna (séculos XV a XVIII): Amor passa a ser parte integrante do casamento.
4 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.3. O Amor na sociedade Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão «Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe e os dois serão uma só carne. Portanto, eles já não são dois, mas uma só carne.»Marcos 10, 6-8 Configuração sociométrica mínima é de dois: da que forma com os pais deve passar a uma em que aparece com uma mulher/marido; estar só tem um significado temível – não há aceitação social para pessoas que estão sozinhas; muitos casais ficam juntos só pelo medo de ficarem sozinhos. Independentemente das crenças religiosas, vivemos numa sociedade de tradição judaico-cristã O medo da solidão leva ao mito da pertença a alguém: «You belong to me», «I belong to you»
5 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.4. Teorias Gerais do Amor The Colours of Love, Lee, 1973 3 estilos de amor primário: Eros: amor romântico e apaixonado, inicia-se com atracção física e evolui para o compromisso; Ludus: amor sedutor, voltado para o prazer, sem compromisso, pode existir com vários parceiros em simultâneo; Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão Storge: amor companheiro, a partir de uma longa amizade, confiança e respeito, afecto é demonstrado de forma não sexual; 3 estilos de amor secundário: Pragma: amor pragmático, procura um companheiro que corresponda a determinadas características - “shopping list”; Mania: amor possessivo, irracional, dependente, obsessivo; Ágape: amor altruísta, cuidado incondicional, não espera reciprocidade. Mania: começa imediatamente a imaginar o futuro com o seu companheiro, força o compromisso, não confia na sinceridade do parceiro IMPORTÂNCIA DE O ESTILO DE AMOR DE UM INDIVÍDUO COMBINAR COM O ESTILO DE AMOR DO SEU PARCEIRO
6 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.4. Teorias Gerais do Amor Teoria Triangular do Amor, Sternberg, 1986 O amor pleno resulta de 3 componentes-base: intimidade, paixão e compromisso; 8 tipos diferentes de amor: não-amor, gostar (“liking”), amor romântico, entusiasmo/paixão, amor fátuo/instintivo, amor vazio, amor companheiro e amor pleno/verdadeiro; Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão
7 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.5. Amor patológico Comportamento incontrolável e repetitivo de cuidar do parceiro, abandonando as próprias actividades e auto-desenvolvimento; Caracterizadas por grande impulsividade; Características clínicas semelhantes às de outras dependências: Sinais e sintomas de abstinência; O comportamento é mais intenso do que o indivíduo gostaria; Perda do controlo sobre o comportamento; É passado demasiado tempo a controlar as actividades do parceiro; Manutenção da relação patológica independentemente dos danos pessoais, familiares e profissionais; Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão O amor patológico não se refere a “amar demais”, mas à insistência numa relação insatisfatória.
8 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.5. Amor patológico Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão Tolerância Privação O objecto pode ser o parceiro romântico ou alguém que existe apenas na fantasia. Surge em relações amorosas na idade adulta ensombradas por experiências afectivas imaturas – vínculo parental durante a infância. A intensidade do amor dependente é muitas vezes proporcional à percepção das necessidades não satisfeitas durante a infância. Quanto mais baixa a auto-estima do indivíduo, maior a vulnerabilidade para o amor patológico.
9 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.6. Ciúme patológico Ciúme como mecanismo de defesa da relação; ♂: preocupação com a perda efectiva do parceiro; ♀: preocupação com o efeito da infidelidade na qualidade da relação; Associado a ideias de incapacidade e inferioridade face ao parceiro ou rival; Para que se considere patológico, têm de se reunir 3 estratégias: Vigilância estreita; Restrição de contactos; Desvalorização do outro. Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão Ciúme tem 3 níveis de significado: Ciúme normal: varia de ligeiro desconforto a raiva selvagem, mas é compreensível à luz da situação ou, pelo menos, uma interpretação errada dela Ciúme neurótico: os modos de expressão são normais, mas, devido a doença psiquiátrica não-psicótica ou PP, é excessivo no grau e prontidão com que é evocado. IDEIA SOBREVALORIZADA Ciúme psicótico: ciúme delirante, que não é permeável à argumentação ou provas em contrário. Ocorre em associação com doença afectiva grave, esquizofrenia, doença mental orgânica, alcoolismo, perturbação delirante. Objecto que se possui e pode ser manipulado e usado; age com o direito presumptivo de que pode ditar o comportamento do parceiro Parceiro como objecto Ciúme Cólera Medo Dependência amorosa
10 Violência emocional e, não raras vezes, físicaDo amor romântico às suas manifestações patológicas. 7. Ciúme delirante Não é permeável à argumentação lógica ou provas em contrário; Provas de inocência, indignação ou protestos da vítima não têm qualquer efeito; Associação com doença psiquiátrica grave (perturbação delirante, alcoolismo, perturbação afectiva grave, esquizofrenia, doença mental orgânica); Na perturbação delirante, podem ser muito persuasivos e convencer os outros de que estão correctos; O indivíduo passa grande parte do tempo em busca de provas - interpretações delirantes. Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão Interpretações delirantes constantes e alto grau de funcionamento das restantes áreas da vida, fazem com que na perturbação delirante os doentes consigam convencer outras pessoas de que estão certos. Quando questionado sobre as acusações, o indivíduo torna-se vago e irritável por estar a ser posto em causa Violência emocional e, não raras vezes, física
11 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.8. Delírio erotomaníaco Convicção delirante de que se é amado por uma pessoa, habitualmente inacessível e de condição social superior; Em muitos casos, o doente nunca faz nenhuma tentativa de contactar com a pessoa amada: Quando contactam, encontram razões para explicar a rejeição ou podem ficar irados com esta percepção; Podem vigiar a pessoa amada e frequentar os mesmos locais: Podem acreditar ser protegidos, cuidados ou seguidos pela pessoa amada; Múltiplas interpretações delirantes; Em associação com perturbação delirante, esquizofrenia paranóide, perturbação afectiva grave, doença cerebral orgânica. Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão
12 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.9. Violência doméstica Dimensão universal; Comunicação em duplo vínculo; Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão Violência doméstica Projeção O agressor aponta à vítima defeitos do próprio e desvia a culpa para ela. Personalização A vítima interioriza as projeções a aceita-as como verdade. Poder Supressão da capacidade do parceiro tomar as suas próprias decisões Poder Domínio Controlo Manipulação Exploração Vitimização do agressor: vítima da incompetência, fraqueza e mediocridade dos outros
13 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.10. Conclusão Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão Formas patológicas Ciúme patológico Ciúme delirante Violência Doméstica Delírio erotomaníaco Amor patológico Amor romântico Portanto, O amor é uma das áreas fundamentais da vida, essencial na manutenção da saúde mental; Cremos que os psiquiatras devem estar familiarizados com as suas formas patológicas, por forma a identificá-las e, quando possível, tratá-las;
14 Do amor romântico às suas manifestações patológicas.11. Bibliografia Allen Gomes F. Paixão, Amor e Sexo. 2ª Ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote; Bustos D. Amor a la vista. 1.ª Ed. Buenos Aires: Lugar Editorial; 1990. Munro A. Delusional Disorder – Paranoia and related illnesses. 1.ª Ed. Cambridge: Cambridge University Press; 2004. Lee JA. The Colours of love: An Exploration of the Ways of Loving. Ontario:New Press; 1973. Sternberg RJ. A Triangular Theory of Love. Psychol Rev. 1986;93(2): Sophia EC, Tavares H, Zilberman ML. Pathological love: is it a new psychiatric disorder? Rev Bras Psiq. 2007;29(1):55-62. Christie G. Falling in love and infatuation. Aust N Z J Psychiatry. 1969;3(1): Earp B et al. Addicted to love: What is love addiction and when should it be treated? Draft paper under review. Curtis J. Elements of pathological love relationships. Psychol Reports ;53:83-92. Definição Origem e evolução O Amor na Sociedade Teorias Gerais do Amor Amor patológico Ciúme patológico Ciúme delirante Erotomania Violência doméstica Conclusão
15 Do amor romântico às suas manifestações patológicasAna Dias Amaral Maria João Peixoto Márcia Mota Sertório Timóteo Isabel Costa Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de São João