1 Ensino de Literatura Brasileira4. O que é literatura? Literatura, ensino de literatura, ideologia e poder. Os direitos do leitor: a leitura como “operação de caça”
2 “Se a teoria literária existe, parece óbvio que haja alguma coisa chamada literatura, sobre a qual se teoriza. Podemos começar, então, por levantar a questão: o que é literatura? Muitas têm sido as tentativas de se definir literatura. É possível, por exemplo, defini-la como a escrita ‘imaginativa’, no sentido de ficção – escrita que não é literalmente verídica. Mas se refletirmos, ainda que brevemente, sobre aquilo que comumente se considera literatura, veremos que tal definição não procede.” (Terry Eagleton, Teoria da literatura: uma introdução, trad. Waltensir Dutra, p.1)
3 “Qualquer linguagem em uso consiste de uma variedade muito complexa de discursos, diferenciados segundo a classe, região, gênero, situação, etc., os quais de forma alguma podem ser simplesmente unificados em uma única comunidade linguística homogênea. O que alguns consideram norma, para outros poderá significar desvio [...]” (Terry Eagleton, Teoria da literatura: uma introdução, p.5)
4 “Não existe uma ‘essência’ da literatura” (Teoria da literatura, p.10)“... podemos abandonar, de uma vez por todas, a ilusão de que a categoria ‘literatura’ é ‘objetiva’, no sentido de ser eterna e imutável. Qualquer coisa pode ser literatura, e qualquer coisa que é considerada literatura, inalterável e inquestionavelmente – Shakespeare, por exemplo –, pode deixar de sê-lo.” (p.11)
5 “Não entendo por ‘ideologia’ apenas as crenças que têm raízes profundas, e são muitas vezes inconscientes; considero-a, mais particularmente, como sendo os modos de sentir, avaliar, perceber e acreditar, que se relacionam de alguma forma com a manutenção e reprodução do poder social.” (Teoria da literatura, p.16)
6 “Portanto, o que descobrimos até agora não é apenas que a literatura não existe da mesma maneira que os insetos, e que os juízos de valor que a constituem são historicamente variáveis, mas que esses juízos têm, eles próprios, uma estreita relação com as ideologias sociais. Eles se referem, em última análise, não apenas ao gosto particular mas aos pressupostos pelos quais certos grupos sociais exercem e mantêm o poder sobre outros.” (Teoria da literatura, p.17)
7 “O estruturalismo é, entre outras coisas, mais uma da série de malfadadas tentativas da teoria literária de substituir a religião por alguma coisa que tenha a mesma eficiência: nesse caso, a moderna religião da ciência.” (Terry Eagleton, Teoria da literatura, p.130)
8 “O fato de o estruturalismo, enquanto movimento intelectual, estar efetivamente encerrado na Europa há alguns anos, parecia não os deter: uma década, aproximadamente, é em geral o tempo necessário para que as ideias atravessem o Canal da Mancha. Esses críticos trabalham, poderíamos dizer, como autoridades da imigração intelectual: sua tarefa é ficar no porto de Dover quando são desembocadas as novas ideias de Paris, inspecionar seus aspectos e peculiaridades que pareçam mais ou menos com as técnicas tradicionais da crítica, admitir cordialmente a sua entrada e impedir a entrada no país dos produtos que pareçam mais explosivos (marxismo, feminismo, freudismo) e que tenham chegado com elas. Tudo o que não pareça capaz de provocar aversão nos bairros da classe média recebe uma autorização de trabalho; as ideias menos cordatas são mandadas de volta no barco seguinte.” (Terry Eagleton, Teoria da literatura, p.131)
9 “Certa ou errada, a teoria freudiana considera que todo comportamento humano é motivado pela fuga da dor e pela busca do prazer: trata-se de uma forma daquilo que em filosofia se chama hedonismo. A razão pela qual a grande maioria das pessoas leem poemas, romances e peças está no fato de elas encontrarem prazer nesta atividade. Tal fato é tão óbvio, que dificilmente é mencionado nas Universidades. É reconhecidamente difícil passar alguns anos estudando literatura na maioria das Universidades e ainda continuar a encontrar prazer nisso: muitos cursos universitários de literatura parecem organizados de modo a impedirem que tal prazer se prolongue; e quem deles sai sem perder a capacidade de gostar das obras literárias, poderia ser considerado herói ou masoquista. [...] ... era preciso tornar a coisa toda bem mais intimidadora e desanimadora, para que a ‘literatura’ conquistasse seu lugar como prima digna dos estudos clássicos.” (Terry Eagleton, Teoria da literatura, p.205-6)
10 “O poder do discurso crítico articula-se em vários níveis“O poder do discurso crítico articula-se em vários níveis. Ele tem o poder de ‘policiar’ a língua, de determinar que certos enunciados devem ser excluídos por não se conformarem ao que é considerado um estilo aceitável. É o poder de policiar a própria escrita, de classificá-la de ‘literária’ e de ‘não-literária’, de perenemente grandiosa e de efemeramente popular. É o poder de autoridade diante dos outros; são as relações de poder entre os que definem e preservam o discurso, e os que a ele são admitidos seletivamente. É o poder de conferir ou não certificados àqueles que foram classificados como bons ou maus usuários do discurso. Trata-se, por fim, de uma questão de relações de poder entre a instituição acadêmico-literária, onde tudo isto ocorre, e os interesses da sociedade em geral, cujas necessidades ideológicas serão servidas, e cujo pessoal será reproduzido pela preservação e ampliação controlada do discurso em questão.” (Terry Eagleton, Teoria da literatura, p.218-9)
11 “Chamo de ‘estratégia’ o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder é isolável de um ‘ambiente’. Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um próprio e portanto capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma exterioridade distinta. A nacionalidade política, econômica ou científica foi construída segundo esse modelo estratégico. Denomino, ao contrário, ‘tática’ um cálculo que não pode contar com um próprio, nem portanto com um fronteira que distingue o outro como totalidade visível. A tática só tem por lugar o do outro. Ela aí se insinua, fragmentariamente, sem apreendê-lo por inteiro, sem poder retê-lo à distância. Ela não dispõe de base onde capitalizar os seus proveitos, preparar suas expansões e assegurar uma independência em face das circunstâncias. O ‘próprio’ é uma vitória do lugar sobre o tempo. Ao contrário, pelo fato de seu não-lugar, a tática depende do tempo, vigiando para ‘captar no voo’ possibilidades de ganho. O que ela ganha, não o guarda. Tem constantemente que jogar com os acontecimentos para os transformar em ‘ocasiões’. Sem cessar, o fraco deve tirar partido de forças que lhe são estranhas. Ele o consegue em momentos oportunos onde combina elementos heterogêneos [...], mas a sua síntese intelectual tem por forma não um discurso, mas a própria decisão, ato e maneira de aproveitar a ‘ocasião’.” (Michel de Certeau, A invenção do cotidiano, 46-7)
12 “Tem que utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário. Aí vai caçar. Cria ali surpresas. Consegue estar onde ninguém espera. É astúcia. Em suma, a tática é a arte do fraco.” (Michel de Certeau, A invenção do cotidiano, p. 101)
13 “... lógica operatória cujos modelos remontam talvez às astúcias multimilenares dos peixes disfarçados ou dos insetos camuflados e que, em todo o caso, é ocultada por uma racionalidade hoje dominante no Ocidente.” (A invenção do cotidiano, p.38)