Ensino de Literatura Brasileira

1 Ensino de Literatura Brasileira11. A formação do leitor...
Author: Juan Casqueira Bicalho
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1 Ensino de Literatura Brasileira11. A formação do leitor: da leitura “ingênua” à leitura crítica. Noções de análise e interpretação da obra literária para o aluno do Ensino Médio

2 “Ler um livro é desinteressar-se a gente deste mundo comum e objetivo para viver noutro mundo. A janela iluminada noite adentro isola o leitor da realidade da rua, que é o sumidouro da vida subjetiva. Árvores ramalham. De vez em quando passam passos. Lá no alto estrelas teimosas namoram inutilmente a janela iluminada. O homem, prisioneiro do círculo da lâmpada, apenas ligado a este mundo pela fatalidade vegetativa do seu corpo, está suspenso no ponto ideal de uma outra dimensão, além do tempo e do espaço. No tapete voador só há lugar para dois passageiros: leitor e autor. Os rumores do momento não conseguem despertar o sonâmbulo encantado, a caminhar sem vacilações sobre o fio invisível da fantasia. Descobriu, pela mão do autor, outro mundo, sublimado e depurado, e dentro dele alguém gritou: terra! terra! Volveu a si mesmo.” (Augusto Meyer, “Do leitor”, Textos críticos, p.3)

3 “O tipo representativa do leitor ingênuo é o devorador de romances que salta capítulos inteiros para chegar ao fim e saber de uma vez qual foi o prêmio do herói, se o moço casou com a moça e o dedo de Deus castigou o mau. De tal modo se identificou com o herói, passando a viver da sua existência sublime, que deseja saber o seu destino como quem quer desvendar o próprio futuro. Ele, simples João, é o Conde de Monte Cristo. Enquadra na grande aventura as suas desventuras. Os olhos ávidos, arrastados linha a linha, página a página, pelo galope da fantasia, estão dizendo: esta é a verdadeira vida, a outra não passa de um pesadelo.” (Augusto Meyer, “Do leitor”, Textos críticos, p.4)

4 “Isto, aliás, se dá mais ou menos com qualquer leitor, diante de qualquer livro; de modo geral, nós nos lemos através dos livros.” (Augusto Meyer, “Do leitor”, Textos críticos, p.3)

5 “Mais tarde, se há o gosto permanente da leitura, o leitor ingênuo perde a faculdade quixotesca de se encarnar nos heróis romanceados [...]. Com um pouco de disciplina literária, aprende a se desinteressar da pura intriga, já não salta sobre os capítulos, na pressa de conhecer o seu destino, pois para ele, agora, viajar é mais interessante do que chegar. O ator transforma-se em espectador. Removida a atenção da anedota para o estilo, do imprevisto cênico para o imprevisto da interpretação, descobre o encanto numeroso da leitura, que está mais no prisma do que no objeto.” (Augusto Meyer, “Do leitor”, Textos críticos, p.7)

6 ÍTACA – Konstantinos Kavafis (1863-1933)Quando partires em viagem para Ítaca faz votos para que seja longo o caminho, pleno de aventuras, pleno de conhecimentos. [...] Faz votos de que seja longo o caminho. Que numerosas sejam as manhãs estivais, nas quais, com que prazer, com que alegria, entrarás em portos vistos pela primeira vez; Guarda sempre Ítaca em teu pensamento. É teu destino aí chegar. Mas não apresses absolutamente tua viagem. É melhor que dure muitos anos e que, já velho, ancores na ilha, rico com tudo que ganhaste no caminho, sem esperar que Ítaca te dê riqueza. (trad. Isis Borges B. da Fonseca)

7 “Entra neste caso, como fator importante, a sensualidade da leitura, que é o reverso da ingenuidade. O leitor sensual cultiva a pausa consciente e lúcida, desperta por prazer de análise, interrompe o autor em pleno voo para apalpar-se cautelosamente, esclarecendo as origens da sua emoção e medindo a parte de intérprete que lhe cabe. Vive mais na ambiência imediata, embora seja capaz de uma abstração mais delicada. A bela imagem, o conceito fino são bons pretextos para fechar o volume e sorrir – um pouco de si mesmo, um pouco do fantasma que anima o texto.” (Augusto Meyer, “Do leitor”, p.8)

8 LEITOR INGÊNUO X LEITOR CRÍTICOator espectador fábula trama anedota estilo intriga psicologia chegada viagem fim percurso ingenuidade sensualidade

9   LEITURA LEITURA INGÊNUA CRÍTICA

10 “Avicena, o filósofo árabe, depois de reler quarenta vezes a Metafísica de Aristóteles e de saber todo o texto na ponta da língua, nem assim conseguira compreender o seu sentido. Mas fez muito bem em não desanimar; porque um belo dia, ao comprar sem maior palpite um tratado de Alfarabi sobre a obra do mestre, a páginas tantas, sentiu o estalo na cabeça e tornou-se o grande intérprete da filosofia aristotélica.” (Augusto Meyer, “Do leitor”, p.9)

11 “A eficácia da produção implica a inércia do consumo“A eficácia da produção implica a inércia do consumo. Produz a ideologia do consumo-receptáculo. Efeito de uma ideologia de classe e de uma cegueira técnica, esta lenda é necessária ao sistema que distingue e privilegia autores, pedagogos, revolucionários, numa palavra, ‘produtores’ em face daqueles que não o são. Recusando o ‘consumo, tal como foi concebido e (naturalmente) confirmado por essas empresas de ‘autores’, tem-se a chance de descobrir uma atividade criadora ali onde foi negada [...]” (Michel de Certeau, A invenção do cotidiano, p.262) “O que se deve pôr em causa [...] é [...] o fato de assimilar a leitura a uma passividade. [...] Análises recentes mostram que ‘toda leitura modifica o seu objeto’, que (já dizia Borges) ‘uma literatura difere de outra menos pelo texto que pela maneira como é lida’, e que enfim um sistema de signos verbais ou icônicos é uma reserva de formas que esperam do leitor o seu sentido.” (p.264-5)

12 Leitura ingênua e leitura crítica: o papel do professorO professor deve colocar como meta levar os alunos do Ensino Médio a se tornarem não apenas leitores, mas leitores críticos? Se a resposta for positiva, por que meios essa meta poderia ser atingida? Que noções de análise e interpretação os alunos precisam dominar para lerem criticamente uma obra literária?

13 “Se os sinais gráficos que desenham a superfície do texto literário fossem transparentes, se o olho que neles batesse visse de chofre o sentido ali presente, então não haveria forma simbólica, nem se faria necessário esse trabalho tenaz que se chama interpretação. Acontece, porém, que as palavras não são diáfanas. Ainda quando miméticas ou fortemente expressivas, elas são densas até o limite da opacidade. Esse fenômeno é estrutural. O processo em que se gesta a escrita percorre campos de força contraditórios, em parte subtraídos à luz de uma consciência vigilante e sempre dona de si própria.” (Alfredo Bosi, “A interpretação da obra literária”, Céu, inferno, p.274)

14 “O intérprete é, por excelência, um mediador“O intérprete é, por excelência, um mediador. Ele trabalha rente ao texto, mas com os olhos postos em um processo formativo relativamente distante da letra. Interpres chamavam os romanos àquele que servia de agente intermediário entre as partes em litígio. Com o tempo, interpres assumiu também a função de tradutor: o que transporta o significado da sua forma original para outra; de um código primeiro para um código segundo; o que pretende dizer a mesma mensagem, mas de modo diferente. A interpretação opera nessa consciência intervalar, e ambiciona traduzir fielmente o mesmo, servindo-se dialeticamente do outro. O outro é o discurso do próprio hermeneuta.” (Alfredo Bosi, “A interpretação da obra literária”, Céu, inferno, p.277)

15 “O intérprete está diante do efeito verbal e estilizado de um processo que é sinuoso e, não raro, obscuro para o seu próprio criador. É preciso que ele respeite esse caráter de mobilidade, incerteza, surpresa, polivalência e, até certo ponto, indeterminação, que toda fala implica mesmo quando tudo nela pareça água de rocha e cristal sem jaça.” (Alfredo Bosi, “A interpretação da obra literária”, p.278)

16 “A divisão em ‘etapa de análise’ e ‘etapa de interpretação’, que tantas vezes propomos em nome da boa ordem escolar, deve sofrer uma severa crítica epistemológica. Ela dá margem a um preconceito bastante antiquado [...] segundo o qual só chegaremos a compreender o todo se o dividirmos em elementos e descrevermos cada um deles. A verdade, porém, exige outra teoria. [...] ... um ir-e-vir do todo às partes, e das partes ao todo: uma prática intelectual que solda na mesma operação as tarefas do analista e do intérprete.” (Alfredo Bosi, “A interpretação da obra literária”, p.281)