1 Literatura Colonial
2 Quinhentismo
3
4 A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir, nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. CAMINHA, P. V. A carta. Disponível em: Acesso em: 12 ago
5 Barroco
6
7 A INSTABILIDADE DAS COUSAS DO MUNDONasce o sol e não dura mais que um dia. (antítese vida/morte) Depois da luz, se segue a noite escura, (ant. claro/escuro) Em tristes sombras morre a formosura, (ant.feio/belo) Em contínuas tristezas a alegria. (ant. tristeza/alegria) Porém, se acaba o sol, porque nascia? (dúvida) Se é tão formosa a luz, porque não dura? Como a beleza assim se trasfigura? Como o gosto da pena assim se fia? (sofrimento) Mas no sol e na luz falta a firmeza; Na formosura, não se dê constância E, na alegria, sinta-se tristeza. (ant. tristeza/alegria) Começa o mundo, enfim pela ignorância, E tem qualquer dos bens por natureza: A firmeza somente na inconstância. (Gregório de Matos)
8 Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome. Padre Antônio Vieira
9 Arcadismo
10
11 XIV Quem deixa o trato pastoril amado Pela ingrata, civil correspondência, Ou desconhece o rosto da violência, Ou do retiro a paz não tem provado. Que bem é ver nos campos transladado No gênio do pastor, o da inocência! E que mal é no trato, e na aparência Ver sempre o cortesão dissimulado! Ali respira amor sinceridade; Aqui sempre a traição seu rosto encobre; Um só trata a mentira, outro a verdade. Ali não há fortuna, que soçobre; Aqui quanto se observa, é variedade: Oh ventura do rico! Oh bem do pobre! Cláudio Manuel da Costa
12 Lira VII Vou retratar a Marília, A Marília, meus amores; Porém como? Se eu não vejo Quem me empreste as finas cores: Dar-mas a terra não pode; Não, que a sua cor mimosa Vence o lírio, vence a rosa, O jasmim, e as outras flores. Ah! Socorre, Amor, socorre Ao mais grato empenho meu! Voa sobre os Astros, voa, Traze-me as tintas do Céu. Mas não se esmoreça logo; Busquemos um pouco mais; Nos mares talvez se encontrem Cores, que sejam iguais. Porém não, que em paralelo Da minha Ninfa adorada Pérolas não valem nada, E nada valem corais. . Ah! Socorre, Amor, socorre Tomás Antônio Gonzaga
13 Poesia Satírica
14 A cada canto um grande conselheiro, Que nos quer governar a cabana, e vinha, Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um freqüentado olheiro, Que a vida do vizinho, e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, Para a levar à Praça, e ao Terreiro. Muitos Mulatos desavergonhados, Trazidos pelos pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia. Estupendas usuras nos mercados, Todos, os que não furtam, muito pobres, E eis aqui a cidade da Bahia. Gregório de Matos
15 O povo, Doroteu, é como as moscas Que correm ao lugar, aonde sentem O derramado mel; é semelhante Aos corvos e aos abutres, que se ajuntam Nos ermos, onde fede a carne podre. À vista, pois, dos fatos, que executa O nosso grande chefe, decisivos Da piedade que finge, a louca gente De toda a parte corre a ver se encontra Algum pequeno alívio à sombra dele. Cartas Chilenas Tomás Antônio Gonzaga
16 Literatura Nacional
17 Romantismo
18
19 Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá.Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Canção do Exílio Gonçalves Dias
20 Se eu morresse amanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã; Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que amanhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Se eu morresse amanhã Álvares de Azevedo
21 São os filhos do deserto,Onde a terra esposa a luz. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus... São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão. Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos, Sem luz, sem ar, sem razão. . . Navio Negreiro Castro Alves
22 Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso (...) Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu...“ Iracema José de Alencar
23 Realismo
24
25 Capítulo CLX - Das negativasEntre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e directa inspiração do céu. O acaso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos.Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semi-demência do Quincas Borba. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: -- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma creatura o legado da nossa miséria. Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
26 Naturalismo
27
28 “Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; (...) ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.” O Cortiço – Aluísio de Azevedo
29 Parnasianismo
30
31 VASO GREGO Alberto de Oliveira Esta de áureos relevos, trabalhada De divas mãos, brilhante copa*, um dia, Já de aos deuses servir como cansada, Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. Era o poeta de Teos** que a suspendia Então, e, ora repleta ora esvazada, A taça amiga aos dedos seus tinia, Toda de roxas pétalas colmada***. Depois… Mas o lavor da taça admira, Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas Finas hás de lhe ouvir, canora**** e doce, Ignota voz, qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas, Qual se essa voz de Anacreonte fosse.
32 Simbolismo
33
34 Sinfonias do ocaso Cruz e Sousa Musselinosas como brumas diurnas descem do ocaso as sombras harmoniosas, sombras veladas e musselinosas para as profundas solidões noturnas. Sacrários virgens, sacrossantas urnas, os céus resplendem de sidéreas rosas, da Lua e das Estrelas majestosas iluminando a escuridão das furnas. Ah! por estes sinfônicos ocasos a terra exala aromas de áureos vasos, incensos de turíbulos divinos. Os plenilúnios mórbidos vaporam … E como que no Azul plangem e choram cítaras, harpas, bandolins, violinos …
35 Pré-Modernismo
36
37
38 OS SERTÕES – EUCLIDES DA CUNHA"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (...) É o homem permanentemente fatigado."
39 URUPÊS – MONTEIRO LOBATOJeca Tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza, em companhia da mulher, muito magra e feia e de vários filhinhos pálidos e tristes. Jeca Tatu passava os dias de cócoras, pitando enormes cigarrões de palha, sem ânimo de fazer coisa nenhuma. Ia ao mato caçar, tirar palmitos, cortar cachos de brejaúva, mas não tinha idéia de plantar um pé de couve atras da casa. Perto um ribeirão, onde ele pescava de vez em quando uns lambaris e um ou outro bagre. E assim ia vivendo. Dava pena ver a miséria do casebre. Nem móveis nem roupas, nem nada que significasse comodidade. Um banquinho de três pernas, umas peneiras furadas, a espingardinha de carregar pela boca, muito ordinária, e só. Todos que passavam por ali murmuravam: Que grandíssimo preguiçoso! Jeca Tatu era tão fraco que quando ia lenhar vinha com um feixinho que parecia brincadeira. E vinha arcado, como se estivesse carregando um enorme peso. Por que não traz de uma vez um feixe grande? Perguntaram-lhe um dia. Jeca Tatu coçou a barbicha rala e respondeu: Não paga a pena. Tudo para ele não pagava a pena. Não pagava a pena consertar a casa, nem fazer uma horta, nem plantar arvores de fruta, nem remendar a roupa. Só pagava a pena beber pinga.
40 TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA – LIMA BARRETOTodos os dias, a mais de trinta anos o major Policarpo Quaresma com a pontualidade de um astro celeste chegava-se em casa as quatro e quinze, ele era subsecretário do arsenal de guerra, sua rotina já era de todos conhecida que na casa do capitão Cláudio sua passagem fazia menção a hora do jantar que se achegava. Morava em casa própria e ia bem de condição, amante dos livros que não mostrava a ninguém, mas que, tornavam-se visíveis ao abrir das janelas. Ele era um patriota enérgico e conhecedor de toda fauna, flora, geografia, hidrografia e das riquezas diversas do seu venerado Brasil. Major Quaresma como era conhecido era um homem pequeno, magro e que usava pince nez. Sempre vestia-se de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque e quase sempre com sua cartola. Ele morava com sua irmã Adelaide e poucas pessoas o visitavam com frequência com exceção de seu compadre e sua afilhada, mas, uma visita chamou a atenção dos moradores, três vezes por semana Ricardo coração dos outros um afamado cantor e compositor de modinhas ia a casa do Major lhe ensinar a tocar violão, e em uma dessas visitas Ismênia, a pedido de seu pai o general Albernaz, o convidou para ir tocar suas modinhas em sua residência. E para lá foram.
41 PSICOLOGIA DE UM VENCIDO - AUGUSTO DOS ANJOSEu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênese da infância, A influência má dos signos do zodíaco. Produndissimamente hipocondríaco, Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Já o verme — este operário das ruínas — Que o sangue podre das carnificinas Come, e à vida em geral declara guerra, Anda a espreitar meus olhos para roê-los, E há-de deixar-me apenas os cabelos, Na frialdade inorgânica da terra!
42 Antecedentes do ModernismoMovimentos de Vanguarda Antecedentes do Modernismo
43 Impressionismo
44
45 CUBISMO
46
47 Traituba O sobrado parecia uma igreja Currais E uma e outra árvore Para amarrar os bois O pomar de toda fruta? E a passarinhada Juá na roça de milho Carros de fumo puxados por 12 bois Codorna tucano perdiz araponga Jacu nhambu juriti Oswald de Andrade
48 FUTURISMO
49
50 O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelasO bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada.
51 DADAÍSMO
52 Parafins gatins alphaluz sexohnei la guerrapaz Ourake palávora driz okê Cris expacial Projeitinho imanso ciumortevida vidavid Lambetelho frúturo orgasmaravalha-me Logun Homenina nel parais de felicidadania: Outras palavras (Caetano Veloso)
53
54 EXPRESSIONISMO
55 O visiotário Jakob van Hoddis (1918)Lâmpada, não esquente. Da parede saiu um braço magro de mulher. Era pálido e tinha veias azuis. Os dedos estavam carregados de preciosos anéis. Quando beijei a mão, assustei-me: Estava viva e quente. Arranhou-me o rosto. Peguei uma faca de cozinha e cortei algumas veias. Um grande gato lambeu graciosamente o sangue do chão. Entretanto um homem de cabelos arrepiados subiu Por um cabo da vassoura encostado à parede.
56 Surrealismo
57
58
59
60
61 Pré-história Murilo Mendes Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som, Equilibrou-se no azul, De tonta não mais olhou Para mim, para ninguém! Cai no álbum de retratos.
62 Modernismo
63
64 A BOBA Anita Malfatti O MAMOEIRO Tarsila do Amaral
65 CAFÉ Cândido Portinari CINCO MOÇAS DE GUARATINGUETÁ Di Cavalcanti
66 1ª fase
67 erro de português Quando o português chegou debaixo duma bruta chuva vestiu o índio que pena! fosse uma manhã de sol o índio tinha despido o português pronominais Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso camarada Me dá um cigarro. Oswald de Andrade
68 Macunaíma No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Quando eu morrer quero ficar Quando eu morrer quero ficar, Não contem aos meus inimigos, Sepultado em minha cidade, Saudade. (...) No Pátio do Colégio afundem O meu coração paulistano: Um coração vivo e um defunto Bem juntos. Mário de Andrade
69 Pneumotórax Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico: - Diga trinta e três. - Trinta e três... trinta e três... trinta e três... - Respire. - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Manuel Bandeira