O MUNDO DO TRABALHO 2017/1 Borges, L.O. & Yamamoto, O.H. (2004). O mundo do trabalho. In: J.C. Zanelli; J.E. Borges-Andrade & A.V.B. Bastos (Orgs.). Psicologia,

1 O MUNDO DO TRABALHO 2017/1 Borges, L.O. & Yamamoto, O.H...
Author: MARCELO CAMACHO CAMACHO
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1 O MUNDO DO TRABALHO 2017/1 Borges, L.O. & Yamamoto, O.H. (2004). O mundo do trabalho. In: J.C. Zanelli; J.E. Borges-Andrade & A.V.B. Bastos (Orgs.). Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed.

2 Tripalium, Trabicula  Trabalho = Sofrimento? “Primeiro o trabalho, depois o prazer.” Trabalho como atividade essencialmente humana?

3 Qual a diferença?  Intermediação da cultura  Intencionalidade  O pior arquiteto x a melhor aranha. Quando uma forma de exercer o trabalho tenta eliminar a intencionalidade humana, ou suas características cognitivas, está tentando descaracterizar o próprio trabalho em uma condição humana central. Forma de planejar e organizar o trabalho (atribuições, poder e tarefas) HOMEM x ANIMAL

4 O que é o trabalho?  Trabalho x Emprego  Emprego pressupõe remuneração e acordo contratual  Desemprego x Emprego  Ou  Desemprego x Trabalho?  Dimensão concreta,  Dimensão gerencial  Dimensão socioeconômica  Dimensão ideológica  Dimensão simbólica Jahoda (1987)Várias dimensões do trabalho

5 A construção da ideologia da Glorificação do Trabalho

6 O trabalho na Grécia  Platão e Aristóteles  Exaltação da ociosidade.  O cidadão deveria ser poupado do trabalho, para Platão.  Aristóteles valorizava a atividade política e referia-se ao trabalho como atividade inferior que impedia as pessoas de possuírem virtude.  O trabalho competia aos escravos.  Aristóteles entendia a escravidão como um fenômeno natural, pois há pessoas destinadas a fazer uso exclusivo de sua força corporal. O escravo jamais estaria apto para as descobertas para os inventos.

7 O trabalho no Império Romano  Como na Grécia, a estruturação da sociedade baseada no escravismo sustentava a forma de pensar clássica sobre o trabalho.  Mas as ideias clássicas não eram unânimes, mas dominantes. Hesíodo (3 séculos antes de Platão) assinalava que o os Deuses odeiam aqueles que vivem inativos.

8 O trabalho no capitalismo  Troca da manufatura para produção industrial  Capitalista => meios de produção  Operário => força de trabalho => vende como mercadoria => aliena o valor de uso no que produziu => mais-valia.  Um bem tem seu valor por causa do trabalho humano nele materializado.  O prolongamento da jornada de trabalho => a exploração máxima do trabalhador.

9 Adam Smith  Preocupação: aumento da produtividade  “A manufatura surge para aumentar a abundância geral, difundindo-a entre todas as camadas sociais.”  Explica a necessidade da especialização no trabalho pela natureza das aptidões individuais.  A divisão do trabalho seria uma propensão humana.

10  Em tal explicação, o requisito principal para o sucesso é o trabalho duro.  Os trabalhadores eram atraídos por mais salários e recrutados pela pobreza.  Para Smith, a economia pode produzir abundância graças aos ganhos de produtividade dentro de uma perspectiva liberal.  Trabalho privado > Trabalho público.

11 Impactos sociais  Separação do ambiente doméstico e de trabalho;  Reunião de um número imenso de pessoas em um só lugar (fábrica), em torno de uma única atividade econômica  Intensificação do crescimento das cidades

12 Impactos na organização  Cooperação  Necessidade de padronizar a qualidade de produtos e procedimentos  Surgimento das funções de direção e supervisão (gerência), para fiscalizar e controlar o trabalho.  Para submeter o trabalhador a essas condições, à noção do “livre contrato”, o modelo capitalista necessitava de outra ideologia que valorizasse o trabalho em oposição ao ócio.

13 A ética protestante  O luteranismo criou a noção de vocação.  Valorizava-se o cumprimento do dever.  A profissão como um dom divino.  As tendências do protestantismo ascético exaltavam o trabalho para a glorificação de Deus, juntamente com o incentivo à poupança.  Quanto mais duro se trabalhava, mais se provava ser merecedor da graça divina.  Atribuía a responsabilidade individual de ter ou não a graça.

14 A glorificação do trabalho  Formula-se uma ideologia que atribui elevada centralidade ao trabalho, independente do seu conteúdo.  O trabalho é uma categoria central que os indivíduos devem tomar como prioridade em suas vidas, porque deverá prover a abundância geral e o sucesso individual.

15 A resistência dos trabalhadores  Embates em torno da jornada de trabalho  O movimento sindical – final do século XVIII e todo século XIX.

16 Para Marx, o trabalho é central por 2 motivos:  1- produz a própria condição de humano “ A maneira pela qual os indivíduos manifestam a sua vida reflete muito exatamente o que eles são. O que são coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem quanto com a maneira pela qual produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais de sua produção”

17  2- A história da humanidade é a história das relações de produção.  A transformação da produção manufatureira para o modo de capitalista da “cooperação”:  Parcelamento progressivo do trabalho e de suas operações  Simplificando a atuação de cada um  Massificação da produção.

18 O trabalho que deveria ser humanizador, torna-se:  Alienante => porque o trabalhador desconhece o próprio processo produtivo e o valor que agrega ao produto, além de não se identificar com o produto de seu trabalho.  Explorador => mais-valia vinculada ao processo de acumulação do capital.  Humilhante => afeta negativamente sua auto-estima.  Monótono => organização e conteúdo da tarefa  Discriminante => classifica os homens pelo trabalho  Embrutecedor => inibe as potencialidades pelo conteúdo pobre e repetitivo das tarefas.  Submisso => aceitação passiva das condições (imposição da organização interna e força do exército industrial de reserva.

19 Secularização da Ideologia do Trabalho  Século XIX – Iluminismo e Razão  Sustentação científica para a concepção e organização do trabalho  Taylor – Princípios da Administração Científica  Assegurar o máximo de prosperidade ao patrão e ao mesmo tempo o máximo de prosperidade ao empregado.  Nega a exploração do trabalhador. Conciliação entre trabalho e Capital

20 Taylorismo  Substituição dos métodos tradicionais pelos científicos.  Adoção do método dos tempos e movimentos – substitui movimentos lentos e ineficientes por rápidos.  Há sempre um método mais rápido e um instrumento melhor.  Máxima decomposição de cada tarefa em operações míminas e cronometragem.  Gerentes devem reunir todos os conhecimentos tradicionais antes dos trabalhadores, classificá-los, tabulá-los, reduzi-los a normas, leis, fórmulas.  Na execução, o trabalhador é poupado de pensar para que possa repetir os movimentos ininterruptamente.  PADRONIZAÇÃO – PARCELAMENTO – SEPARAÇÃO DA CONCEPÇÃO DA EXECUÇÃO DO TRABALHO.

21 CRÍTICAS  Pretensa visão integrativa de propósitos  Adestramento que aparece com auxílio ao empregado para que execute melhor sua tarefa  Incentivo salarial – o trabalhador assimila o “desejo” de aumentar a produção.  Intensifica o processo de exploração e alienação, porque radicaliza a monotonia e a cisão entre pensamento e execução e amplia a mais-valia relativa.  Supervisão estrita concebe um trabalho hierarquizado, subordinado, baseado em uma visão dualista do ser humano.

22 Fayol  Visão macroscópica da organização, estudou funções de gerenciamento.  Contribuições de concepções:  - Formalista da empresa => conjunto de cargos hierarquizados.  - Mecanicista do operário => acomodação das personalidades às necessidades organizacionais;  - Naturalista da organização do trabalho => defende que o parcelamento das tarefas é uma tendência natural e não uma construção social  - Hedonista da motivação => tenta prever o comportamento, vinculando-o exclusivamente à remuneração do trabalho.

23  Com escolher pessoas para exercer cargos conforme planejados?  Como disciplinar cada operário para garantir a execução coletiva do trabalho?  Que aptidões o operário deve ter?  Que sistema de recompensas é adequado?

24 Henry Ford  Produção de automóveis  Cadeia de montagem sobre a esteira rolante  Utilização de moldes  Controle da exatidão das peças  Uso de máquinas especializadas  Movimento das peças e seus subconjuntos na esteira, eliminando deslocamento de operários.  Fluxo contínuo de produção.

25 A Ford  Controle do ritmo do trabalho pela cadência da máquina e não mais pela supervisão humana.  Massificação da produção  Fabricação de carros com preços acessíveis  Políticas de remuneração para suprir: indisciplina, absenteísmo, rotatividade, desinteresse pela produção e dificuldades de comunicação e adaptação dos imigrantes

26 A Ford  Five dollars a day  O pagamento integral dependia não só da produção, mas dos hábitos de vida.  Departamento de social com equipe de investigadores: dedicação à família, cuidados com a casa, aplicação do salário, poupança, uso de bebidas alcoólicas, etc.  Programa de educação de imigrantes: inglês e estilo de vida americano.

27 Fordismo  As políticas de remuneração mantinha os funcionários longe dos sindicatos.  Mas a insatisfação continuava:  Esvaziamento do conteúdo do trabalho.  Rotatividade de 370 % ao ano (programa 5 dollars a day baixou para 16%)  Rotina extenuante => fordites

28  Embora o taylorismo e o fordismo tenham se dado em paralelo, suas características são tão semelhantes que os autores o tomam como complementares:  Anos 20 como consolidação do taylorismo-fordismo.

29 A Construção da Sociedade do Bem- Estar  Keynes  Oposição às idéias liberais  Capitalismo não-regulado incompatível com a manutenção do pleno emprego e da manutenção da estabilidade econômica.  Análise macroeconômica - variáveis amplas da economia, como nível de consumo, investimento, gastos do governo, arrecadação de tributos e balanço do comércio exterior.

30 Ciclo progressista ou virtuoso - Keynes consumo demanda de produtos empregos

31 O Estado do Bem-Estar (Welfare State) – 1940 -1950 nos países industrializados  Também chamado de Estado-Providência, de compromisso keynesiano ou, ainda, compromisso fordista:  (1) organização do trabalho sustentada no taylorismofordismo;  (2) regime de acumulação do capital sob a lógica macroeconômica (keynesiana), que requer o estabelecimento de um ciclo progressista da economia  (3) modo de regulação de conflitos com larga institucionalização (legislação social, regras de mercado, orçamento público, etc.).  Tal modelo tem nas convenções coletivas de trabalho seu principal instrumento para lidar com os conflitos capital-trabalho.  No Brasil, apenas um ideal a ser alcançado

32 Diante de um trabalhador com mais poder...  Um novo apelo ideológico à importância do trabalho: o gerenciamento.  Focalização da eficiência e da produtividade x “lucro” (palavra banida mesmo na cultura dominante das sociedades industriais).  Serviços científicos da Psicologia e da Administração.

33 Novas questões da Psicologia  Como liderar?  Como motivar?  Como combater a rotatividade?  Como preparar gerentes? Quais as habilidades gerenciais?  Como as organizações podem mudar para adaptar melhor seus empregados?  Como negociar?  Como tornar as comunicações internas da organização mais  eficientes?  Como funcionam as redes informais de  comunicação dentro da organização?  Como selecionar, tendo em vista um emprego de longo prazo?  Como atrair pessoal para a empresa?  Quais as condições ideais de trabalho?  Qual o efeito das relações interpessoais no desempenho?  Qual a medida certa de incentivo para cada empregado?

34 O trabalho ganha novo sentido: “a gente não quer só dinheiro...”  O trabalho mantém seu papel instrumental para fins econômicos/salariais, e também para possibilitar qualidade às relações interpessoais e de bem-estar.  Vínculo estreito entre o consumo e o trabalho => Redução na centralidade do trabalho (em comparação com as concepções do capitalismo tradicional e tradição marxista)  Busca do progresso (incluindo a valorização da mecanização) => permite buscar no trabalho satisfação socioeconômica e interpessoal.

35 A instrumentalidade do trabalho sob o gerencialismo  Troca de trabalho empobrecido no conteúdo (com uma organização do trabalho baseada na mecanização, na divisão parcelada do trabalho e na estrita supervisão), por:  Recompensas salariais/ financeiras, assistenciais e interpessoais, satisfação do consumo  A troca fez calar os desejos mas não os eliminou...

36 Enquanto isso, no Brasil...  A falta de um efetivo Estado do Bem-Estar no Brasil e o prolongamento da ditadura militar fizeram que algumas conquistas de melhores condições de trabalho ocorressem tardiamente, entre o final da década de 1970 até meados da década de 1980, a partir do processo de abertura democrática do país.

37 A decadência do Estado do Bem-estar  Fim da Guerra Fria  Derrocada do socialismo  Crise fiscal  Internacionalização da economia: diminuição da eficácia dos Estados Nacionais  O estilo de gerenciamento : as empresas gigantes, com estruturas complexas e caras perderam a flexibilidade necessária para acompanhar as tendências de mercado.  Crise interna do fordismo quanto à oferta e uma crise internacional quanto à demanda.

38 As críticas humanística ao modelo do bem-estar  O trabalho, tomado como mercadoria sob o compromisso fordista, valoriza-se como valor de troca e não pelo seu próprio conteúdo, perdendo a capacidade de se constituir numa categoria estruturante da identidade dos indivíduos e da sociedade. (Gorz, 1982).  Tragtenberg (1980) tece forte crítica à atuação dos psicólogos vinculados ao chamado movimento das relações humanas: reduzir os problemas de convívio dos indivíduos com o trabalho às suas manifestações nas relações interpessoais, desprezando o fato de que estas são construídas no contexto socioeconômico.

39 Um novo modelo sob o impacto:  Da adoção de novas tecnologias na produção – informática e automação ;  Da revolução nos meios de comunicação;  Do surgimento de novos estilos de gestão. As resistências dos trabalhadores à cadência da máquina e às tarefas sem significado gradualmente evidenciou que a tentativa do capital de eliminar a iniciativa e decisão operária era um objetivo inalcançável. A expropriação do saber operário nunca ocorreria por completo e o capital continuaria a depender dele para resolver os problemas não-previstos no processo produtivo.

40 Alterações nos estilos gerenciais  Redução dos controles e abertura de espaços de participação.  Pressupostos para o desempenho organizacional: o bem-estar dos indivíduos, as funções/capacidades complexas dos indivíduos (raciocínio abstrato, valores, identificação com a empresa, capacidade de guiar-se por objetivos, de resolver problemas, criar, levantar alternativas, discordar, etc.), maior competência interpessoal para convívio em grupo e para negociar.  Círculos de Controle de Qualidade, na Gestão Participativa, nos Programa de Qualidade Total, Toyotismo.  Maior envolvimento do trabalhador no processo decisório e o gosto do trabalhador pelo que faz.

41 O bem-estar do indivíduo passa a ser valorizado  Fordismo: - Bem-estar era um resultado externo ao trabalho, uma compensação pelo trabalho duro. - “O pensar” operário deveria ser eliminado, pois perturbava a produção.  Novos estilos gerenciais: - o bem-estar torna-se um insumo necessário à realização das tarefas. - as organizações necessitam das habilidades cognitivas dos trabalhadores.

42 A substituição da eletromecânica pela microeletrônica.  flexibilidade que introduz no processo produtivo = comporta modificações no tipo e na seqüência das operações;  redução do tempo de produção, possibilitando novas formas de combate aos tempos mortos de trabalho, por exemplo, por meio da maior integração entre as operações e a circulação de materiais e mesmo entre as diferentes fases da operação;  A conseqüência é que o trabalho vai se tornando uma tarefa de controle e supervisão das máquinas.

43 Impactos na organização  A maior participação requer descentralização administrativa, que elimina níveis hierárquicos intermediários na estrutura da organização, com isto extinguindo postos de serviço.  O combate ao gigantismo organizacional, concentrando as ações em suas atividades fins, eliminando e/ou terceirizando setores e/ou atividades.  Terceirização - passar do contrato de trabalho para o contrato comercial (menos encargos sociais e visão acentuada do trabalho como mercadoria)

44 Novas questões para a psicologia  Quais os efeitos de tais políticas naqueles empregados que ficam?  Vivem sob a égide do medo da demissão?  Isso afeta suas motivações, seu envolvimento?

45 Reengenharia  Segundo Hammer e Champy(1994), consiste em abandonar velhos sistemas e começar tudo de novo.  Foi concebida quando criticar ou propor algo quecontradizia o modelo fordista/taylorista já não causava um grande impacto.

46  A reengenharia articula também o desenvolvimento tecnológico à desconcentração produtiva, à recusa da produção em massa baseada na noção das diferenciações dos clientes e/ou inexistência do cliente médio.  A reengenharia tem sido acompanhada na prática pela aplicação de políticaspoupadoras de mão-de-obra bastante radicais.  O estruturador de negócios => o trabalhador de caso e/ou equipe de caso, pois a proposta supõe um único trabalhador ou uma pequena equipe integrada dando conta do processo como um todo e, conseqüentemente, realizando o atendimento completo do cliente.

47 Toyotismo  Horizontalização  Mas também supõe-se a intensificação da exploração do trabalho.  Eliminação cada vez mais intensa do número de postos de serviço, o que implica acelerada redução do número de empregos no núcleo moderno e formal da economia.

48 Mudanças de valores  A descrição do trabalho como monótono, embrutecido, repetitivo, manual, pesado, etc., não dá mais conta da realidade após essas transformações, ao menos no processo de trabalho no núcleo moderno da economia.  Valores como criatividade, autonomia, independência, iniciativa, reconhecimento, saúde, desafio, etc., deixam de ser alvos distantes para serem requisitos concretos do trabalho.

49 Será que mudaram os propósitos ou o discurso?  Para Heloani (1996), as novas formas de gestão tentam harmonizar elevação do grau de autonomia do trabalhador e desenvolvimento de mecanismos de controle mais sutis, nos quais a dominação ocorre ao nível do inconsciente. É suposto que o trabalhador realize determinadas ações de forma autônoma porque se identifica com os objetivos e valores das empresas, e não mais pelo controle estrito da supervisão. O controle é interiorizado culturalmente e passa a ser tomado por autocontrole.

50 Novo cenário  Eliminação tendencial de postos de atividades repetitivas, recomposição de atividades, ênfase na polivalência, revalorização da qualificação dos trabalhadores, foco nas relações de mercado e concorrência, horizontalização das relações de poder, tendências de adoção de estratégias gerenciais que ampliam a participação no processo decisório, renovação tecnológica baseada na informática, automação e modernização da comunicação, diminuição dos quadros de pessoal e maior circulação do seu pessoal entre cargos e filiais.

51 Novas questões para a psicologia  Há mais possibilidades de gosto pelas tarefas?  Como se compatibiliza tais possibilidades com as pressões?  Como se envolver com as tarefas e se comprometer com os objetivos organizacionais, quando não se tem garantia da permanência na organização?  Que conseqüências psíquicas têm as pressões por produtividade?  Há compatibilidades entre o que se exige do trabalhador e as  condições que lhe são oferecidas?  Ocorrem alterações psíquicas? Quais são elas? Que significados os  indivíduos atribuem a essas mudanças? Os indivíduos estão mais motivados ao trabalho? Que novas demandas se apresentam aos psicólogos?

52 O desemprego estrutural  Os trabalhadores em atividades em declínio e sem flexibilidade para mudar serão os mais prejudicados.  Estratégia de enfrentamento do problema, para qualquer país => procurar melhorar as aptidões do seu povo ou facilitar a transição para novos empregos.

53  A migração da oferta de emprego do setor industrial para o setor de serviços, a interdependência entre os segmentos formais e informais da economia, o aumento dos empregos de tempo parcial e temporários.  O desemprego mais freqüente e a concomitante vivência da ameaça de desemprego  Percepção generalizada de instabilidade.  As expectativas de um emprego para toda a vida, propagadas na década de 1960, tornam-se hoje irrealistas.

54  Como reagem os que ficam?  E sob a ameaça, há envolvimento com o conteúdo do trabalho?  Aumenta ou diminui a atenção à qualidade do que se faz?  Aumenta o comprometimento?  Que impacto tal ameaça tem sobre a motivação e sobre a saúde das pessoas?

55  Se a renda está associada à oferta do emprego, deve haver regulamentação do salário?  A elevação do salário mínimo gera desemprego?  E a flexibilização no estabelecimento de salário facilita a superexploração?

56 O problema de incompatibilidades entre níveis instrucionais e cargos e salários.  Por exemplo, Soratto e colaboradores (1996) assinalam que numa amostra de 338 bancários, 60% dos que trabalhavam no setor privado e 80% no setor público já haviam cursado ou estavam cursando o nível superior.  Não foi encontrada nenhuma relação entre o nívelde escolaridade e as funções.

57  A concepção acentuadamente instrumental do trabalho sob o gerencialismo cria, portanto, tensões (contradições) em torno da busca de qualificação pela instrução formal e o conteúdo dos postos de trabalho.

58 O discurso da empregabilidade  Supõe que cada um é responsável por se tornar empregável.  Que implicações têm esta situação nas políticas de treinamento  e de desenvolvimento de pessoal?  O quanto as empresas têm assumido a responsabilidade de treinar  pessoal?  Está ocorrendo uma tendência de transferência da responsabilidade da empresa para o indivíduo?  Quanto o próprio indivíduo deve investir na sua qualificação?  Quanto compete à organização?  O tempo gasto em se qualificar e requalificar é um tempo de trabalho?  Treinamentos, cursos, congressos e outras formas de qualificações além da jornada de trabalho significam jornada de trabalho maior?

59  A reduzida fiscalização dos aspectos de segurança no trabalho;  Baixos níveis de instrução e de salários da população;  Tratamento da demissão;  Política paternalista do Estado em relação ao empresariado => arca com as despesas decorrentes de acidentes de trabalho e doenças profissionais.  Trabalhadores e seus sindicatos aceitam trocar a falta de adoção de medidas preventivas por adicionais de insalubridade e periculosidade.

60 Questões para a psicologia  A psicologia tem mapeado as alterações psíquicas por ocupações?  Há alterações psíquicas reconhecidas como sendo vinculadas ao trabalho?  Há um espaço de atuação do psicólogo junto às políticas públicas de saúde do trabalhador?

61 Segmentalistas  Os segmentalistas descrevem a distribuição de salários como sendo plurimodal.  Estudam o crescimento da renda por nível de escolaridade para (1) trabalhadores rurais, (2) urbanos assalariados e autônomos, (3) o mercado primário subordinado e (4) o mercado primário independente.

62 Segmentalistas  Não se pode dizer que a renda cresce inequivocadamente conforme o nível da educação.  Isso ocorre apenas para os trabalhadores dos mercados primários (principalmente independente).  Os segmentalistas caracterizam o mercado de trabalho primário por hábitos de trabalho e empregos estáveis, salários relativamente altos, produtividade alta, progresso técnico, existência de canais de promoção internos, oferecimento de treinamento e promoção por antigüidade. Tais características são mais comuns em firmas grandes, às vezes oligopolistas, e com alta relação entre capital/trabalho.

63  Já o mercado de trabalho secundário é caracterizado por alta rotatividade da mãode- obra, salários relativamente baixos, más condições de trabalho, baixa produtividade, estagnação tecnológica, oportunidades de aprendizagem proximadamente nulas e mão-de-obra não- organizada por meio de sindicatos.

64 Questões para a psicologia  Que pensam os homens dos nossos dias sobre seu trabalho?  O que esperam dele? Que resultados desejam?  Sentem orgulho pelo que fazem? Associam-no a que valores?  Queixam-se de quê?  A relação com o trabalho tem afetado a vida em família? Como? A família apóia o indivíduo em seu trabalho?  Encontram no trabalho a realidade que buscam?  A categoria trabalho continua estruturando a vida das pessoas e dificilmente isso mudará a curto prazo

65 Questões para a psicologia  O desemprego afeta a saúde mental ou é o contrário?  A variação da natureza das pequenas alterações psíquicas ocorre por categoria ocupacional?  E dentro de um mesmo setor econômico, varia por organizações?  Existem doenças mentais associadas ao trabalho? É possível o desenvolvimento de ações preventivas?  Que caminhos a Psicologia tem apontado? Tem optado pela busca de soluções individuais ou coletivas?  As respostas encontradas pela Psicologiareforçam que tipo de concepção do trabalho?

66 ENFIM: TRABALHO PRAZERSOFRIMENTO

67 Resumo  Com o surgimento do capitalismo engendrou-se uma concepção do trabalho que o exalta como central na vida das pessoas, como o único meio digno de ganhar a vida, independente do seu conteúdo. Segundo esta ótica, trabalhar duro conduz ao sucesso econômico.  Como a realidade do trabalho concreto na qual engendrou-se tal concepção era extremamente adversa, apesar da atratividade que a fábrica e/ou a oficina representava em relação ao campo, ou da extrema falta de meios de sobrevivência, esta concepção precisou do apoio do protestantismo e depois da administração clássica para chegar a sua exaltação.

68  A mesma realidade que engendrou aquela concepção do capitalismo tradicional também nutriu os movimentos que lhe ofereciam resistência. Surge, entre essas tendências, a concepção marxista, que analisa o trabalho sob o capitalismo criticando sua mercantilização, bem como elucidando características como alienação, monotonia, repetição, embrutecimento, submissão, humilhação e exploração. A concepção marxista reivindicava um trabalho no qual se pudesse produzir a própria condição humana.

69 O desenvolvimento do capitalismo na primeira metade do século XIX levou à tentativa de construção  A concepção implícita de trabalho atribuía uma centralidade relativamente menor, posto que o consumo ganhava importância e o trabalho lhe sendo uma mercadoria, era importante porque se constituía em um meio de garantia do consumo. Aquelas características do trabalho, já presentes no capitalismo tradicional e decorrentes da organização da produção (por exemplo, parcelamento segundo as mínimas operações componentes, empobrecimento do conteúdo, etc.), foram exarcebadas; porém, a obtenção do sucesso econômico passou a ser explicada de maneira mais complexa sendo o esforço apenas um dos aspectos relevantes. Estabelecia uma troca entre trabalho esvaziado de conteúdo, mas estimulado pelo reforços socioeconômicos. Cabia então às empresas o gerenciamento dessa situação, sob regulação do Estado (concepção gerencialista).

70 Em síntese, podemos dizer que o mundo do trabalho, a partir dos anos 1970, conta, um cenário cujos marcos conjunturais são:  (1) um crescimento mais lento da economia, com queda da credibilidade no  progresso e no futuro;  (2) surgimento do desemprego estrutural e dissociação entre crescimento econômico  e crescimento da oferta de emprego;  (3) generalizada percepção de instabilidade no emprego;  (4) persistência de várias formas de discriminação (por  exemplo, qualificação e gênero);  (5) intensificação das desigualdades sociais pelas características da distribuição  de renda;  (6) tendência à redução das incompatibilidades entre instrução formal e requisitos dos postos de trabalho no núcleo moderno da economia e  (7) persistência das trocas de trabalho pobre em conteúdo e/ou arriscado por aumento de consumo entre a maioria da população (trabalhos precários).