Processo II Prof. Dr. Bruno Fuser Introdução Págs. 7 a 21

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Author: Gabriel Henrique Leandro Salazar Caiado
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1 Processo II Prof. Dr. Bruno Fuser Introdução Págs. 7 a 21Coimbra, Oswaldo. O texto da reportagem impressa – um curso sobre sua estrutura. São Paulo : Ática, 1993 Processo II Prof. Dr. Bruno Fuser Introdução Págs. 7 a 21

2 A dupla face do texto Primeira face: o texto enquanto estrutura aberta, ligada ao contexto extraverbal. Faz análise da ligação texto-realidade. Normalmente valoriza-se essa face. Segunda face: o texto enquanto estrutura cujos elementos estão internamente organizados. Texto é estrutura, um conjunto, as partes desse conjunto e as relações que ligam essas partes. Construção, arranjo, sistema também indicam a noção de estrutura. Componentes da estrutura são comumente chamados de elementos, conceitos e de partes.

3 A estrutura da notícia Notícia: cuida da cobertura de fato ou série de fatos. Reportagem: levantamento de assunto, segundo ângulo preestabelecido (LAGE). Interesse (contexto extraverbal) do leitor determina estrutura. Diferença: tratamento do fato jornalístico, no tempo de ação e no processo de narrar. Reportagem amplia o fato no espaço e no tempo, através de abordagem estilística (MEDINA). “Grande reportagem abre o ‘aqui’ num círculo mais amplo, reconstitui o ‘já’ no antes e depois, deixa os limites do acontecer para um estar acontecendo atemporal ou menos presente” (Medina, 1978, p. 134)

4 A reportagem Três estruturasReportagem reúne tantas informações, muitos espaços geográficos e possibilidades de tempo ampliados que conduz aos blocos chamados “retrancas”. Montar uma matéria extensa, como uma entrevista em profundidade ou um conjunto de entrevistas, oferece dificuldades similares à estruturação de uma narrativa literária, a de um conto, por exemplo (MEDINA). Três estruturas Três matrizes de gênero do texto: dissertativo, narrativo e descritivo. Há estruturas dominantes, mas também partes de outras estruturas, conformando um texto misto.

5 A dissertação Dissertação: objetivo é expor, explanar, explicar, interpretar idéias. Argumentação: busca convencer, persuadir ou influenciar o leitor. Na reportagem dissertativa, função de informar é inseparável do esforço de convencer o leitor a aceitar a informação no contexto de um raciocínio que se pretende correto, há nela argumentação. Dissertação e argumentação, aqui, serão sinônimos. É importante o componente lógico que se integra na relação entre argumentador (jornalista) e leitor. Lógica e raciocínio Relaciona-se ao raciocínio dedutivo, que busca do geral para o particular fazer aceitável a conclusão. Requer rigorosa articulação das partes, para não anular a validade do raciocínio.

6 A dissertação “Terra onde o sim muitas vezes é não, mistura inebriante de todas as ambigüidades. Tóquio personifica a incrível e obstinada capacidade dos japoneses de harmonizar os contrários e fazer do presente um amálgama do passado e do futuro. Cidade-fênix renascida das cinzas de um grande incêndio, de um violento terremoto e da 2ª Guerra Mundial, em pouco mais de três décadas tornou-se o centro irradiador do novo, do contemporâneo, capital de um país que ficou três séculos fechado em si mesmo e hoje é a superpotência capitalista do planeta. Labirinto de contradições, ponto de encontro entre Leste e Oeste, Tóquio é a revelação e o grande enigma da modernidade.” (Matinas SUZUKI JR. Tóquio, o claro enigma. Marie Claire, Rio de Janeiro, abril de 1991, p.10).

7 A dissertação Fatos e testemunhosArgumentação tem dois elementos principais: a consistência do raciocínio e a evidência das provas. Só os fatos provam. O testemunho é outro tipo comum de evidência. Se autorizado e fidedigno, seu valor de prova é inegável. Mas sua eficácia é relativa, pois o mesmo fato presenciado por várias pessoas pode assumir proporções e versões as mais diversas. São ainda evidências: os exemplos (fatos típicos ou representativos da situação) as ilustrações (narrativas detalhadas e entremeadas de descrição) dados estatísticos (geralmente tanto podem servir para provar como para refutar a mesma idéia).

8 A narração Características: um estado de equilíbrio inicial, uma ação transformadora, que rompe esse equilíbrio, e uma nova ação, da qual resulta novo equilíbrio. Exposição, complicação, resolução. Pode ainda contemplar uma avaliação e uma moral. Dimensão temporal: comportamentos têm relações mútuas de anterioridade e posterioridade. Referência primordial a ação de pessoas, às quais ficam subordinadas as descrições de circunstâncias e objetos. Origem: narradores anônimos – lavrador sedentário (que narra as histórias e tradições de sua terra) e marinheiro mercante (que conta as viagens). Necessita de autoridade que lhe confere validade. O jornalista narra a partir da experiência própria ou na que lhe foi relatada. Com o jornalismo de vivência (valorização de aspectos do cotidiano) a experiência é valorizada.

9 A narração “Boris Ieltsin discursava na tarde de quarta-feira: ‘Ianaiev está preso. Um grupo já saiu para a casa do ministro do Interior, Pugo’. A multidão aplaudia entusiasmada. Os mocinhos haviam vencido e os bandidos estavam sendo capturados. Boris Pugo estava em casa com a mulher e um empregado. Desligara-se da rede de comunicações da nomenklatura, mas tocou o telefone do seu número particular. Era o chefe da KGB russa: ‘Precisamos conversar’. Entendeu tudo e pediu que o procurassem em casa. Por isso é que Ieltsin falava que ‘o grupo saiu’. Aos 54 anos, letão, filho de bolchevique e provavelmente a mola do golpe que tentara depor Gorbachev, pegou o revólver, deu dois tiros na mulher, abriu a boca, enfiou o cano e disparou. Quando o grupo chegou ninguém respondia à campainha. Esperaram cerca de quinze minutos até que o empregado de meia-idade abriu: ‘Houve uma tragédia’. O casal agonizava. Pugo morreria horas depois”. (O golpe socialista. Veja, São Paulo, 28 de agosto de 1991, p.26)

10 A narração Narrativa literária x narrativa jornalísticaNarrar alguma história não é mais viver essa história. “Uma reportagem, uma entrevista ou uma série de entrevistas, uma vez obtidas em campo (o Real) são estruturadas em um texto. (...) estamos diante de uma representação simbólica” (MEDINA, 1988, p.77) Mas em que se difere do texto literário? Não há conteúdos exclusivos, e é difícil discernir o real do fictício, por exemplo, em um texto religioso. Diferenciação: a função que o texto exerce. O texto jornalístico visa informar. Os demais, convencer, documentar, ou têm função estética. Texto literário não apenas veicula conteúdos, mas recria- os na sua organização. Fronteira não é facilmente demarcável, pois há inúmeros textos jornalísticos que podem ser lidos não apenas como documentos históricos e sociológicos, ou como fruição e exercício do prazer do texto, e mesmo criação de novos códigos de metalinguagem.

11 A descrição Um tema-chave enuncia a seqüência descritiva, seguido de uma série de subtemas. Expansões predicativas (atribuições de qualidades, de ações, aos subtemas). Pode estar dentro do texto narrativo ou do texto dissertativo. Quando a descrição é situada dentro da estrutura do texto narrativo, serve para retardar o relato de determinado acontecimento. Descrição de pessoas Os elementos da estruturação do texto descritivo de pessoa podem ser buscados nos conceitos criados para classificar elementos da comunicação face a face, realizados na área da Comunicação Não-verbal. É sobretudo através da comunicação face a face, possibilitada pelas entrevistas, que o jornalista observa as pessoas que se tornarão personagens de seus textos.

12 A descrição “Localizada num dos quartiers mais interessantes de Paris, a Agnès B. Homme (Rue du Jour, 2) é a loja dos executivos franceses descolados. O caimento é impecável e seu forte são as roupas básicas: em qualquer época se encontram calças de lã ou veludo e camisas clássicas nos tons preto, marinho, cinza e branco. Cardigãs com botões de pressão, cashmeres com gola rulê e camisetas com gola pólo também estão sempre na vitrine, em diversas cores. Um paletó ou jaqueta de couro ou chamois sai por cerca de 500 a 600 dólares, mais em conta que muita grife brasileira. Na vizinhança estão animados bares e cafés, como o Bon Pêcheur (em frente ao Forum Lês Halles), cujo dono, Gérald, morou em Búzios e até faz sucos e batidas de frutas brasileiras”. (Carla Danesi. Paris, moda e prazer. Exame Vip, São Paulo, 2/10/91, p.10)