1 Repensar a Educação Rio Maior, 13 de julho de 2017
2 O contributo das Humanidades na construção da escola do futuroManuela Dâmaso
3 VÍTOR AGUIAR E SILVA “As Humanidades devem ser, na escola e na vida, arcos da abóbada do futuro.” In As humanidades, os estudos culturais, o ensino da literatura e a política da língua portuguesa, Almedina, 2010.
4 Humanidades Conceito Nas línguas europeias modernas, surge o nome plural de “Humanidades”, com o significado de “línguas e literaturas grega e latina” data, em língua francesa, do século XVII e, em inglês, do século XVIII. Este nome é, no entanto, herdeiro da expressão studia humanitatis, já em uso no século XIV, em Itália.
5 Humanidades Os studia humanitatis abrangiam a Gramática e a Retórica, agregando-lhe a História, a Filosofia moral e, sobretudo, a Poesia, excluindo a Lógica. Os humanistas (termo usado no século XV) são os professores e os alunos que se dedicam àqueles estudos.
6 Humanidades Até ao século XVIII, nas universidades e nas escolas em geral do Ocidente, Humanidades consistiam no ensino das áreas já mencionadas: Gramática, Retórica, Poética, História e Filosofia moral. Só a partir da segunda metade do século XVIII, surgem as Humanidades modernas com a possibilidade do ensino deixar de ser apenas em latim. (Adam Smith, 1748, estudo do Inglês, da Retórica e da Literatura inglesas na Universidade de Edimburgo).
7 Atualmente, o conceito abrange:Humanidades Atualmente, o conceito abrange: Artes; Conjuntos organizados e coerentes de saberes, de princípios e de normas; Finalidade última: educação e formação do ser humano.
8 Humanidades Lugar central num ensino “que se proponha educar e formar homens e mulheres livres, ética e civicamente responsáveis.” (Silva: 2010) Como? Na defesa intransigente contra os dogmas. Na preservação, na leitura, na interpretação e no estudo histórico-literário dos textos (poéticos, jurídicos, históricos, entre outros).
9 Humanidades Comentar com fundamento.Parafrasear (implica a capacidade de compreender e de interpretar). Construir em si um leitor de: um verso, um texto, um conto, um mapa, a vida.
10 Humanidades Habilitam o ser humano a produzir, comunicar e a interpretar os discursos e os textos em que as civilizações se fundam. Religião, política, moral, poesia, qualquer área estruturante de uma civilização é apreendida e explicada através das Humanidades.
11 Humanidades Ensinam o ser humano a falar, a escrever, a interpretar, a argumentar, a ponderar os valores, a tomar decisões na esfera política, a representar poética e simbolicamente as suas ações, as suas misérias e os seus sonhos. Não são o privilégio ou a opção de grupos, são a base para compreender e produzir textos de tipologia diversa, para participar responsavelmente na vida cívica.
12 Humanidades Promovem o desenvolvimento da inteligência, da subjetividade, da intuição e das emoções (Adamastor). Permitem conhecer a pluralidade e a relatividade, a permanência e a universalidade dos valores éticos, logo, da condição humana. Constroem seres capazes de compreender a legítima diversidade das crenças e dos valores alheios.
13 Humanidades Porquê o declínio do seu papel na sociedade?Em 1999, George Steiner, no artigo “O Ocaso das Humanidades”, já questionava a contradição entre as quantias colossais na construção e remodelação de grandiosas bibliotecas e de museus, com equipamentos de ponta e a secundarização das Humanidades, no ensino, na sociedade em geral.
14 Humanidades Carlo Strenger publicou em 2012 O Medo da Insignificância, apresentando-nos uma nova espécie: o Homo globalis. Trata-se de seres ligados ao sistema global do infotainment.
15 Humanidades O valor do indivíduo mede-se pelo número de amigos do Facebook, pelo número de entradas no Google. O que importa é o lugar nas listas das pessoas mais influentes, mais populares, mais sexy.
16 Humanidades Estamos perante a mercantilização do eu.Vive-se numa permanente instabilidade da autoestima e da vida com significado. (A Viagem – Sophia) Criou-se o dogma de que o que realmente tem valor pode ser medido em termos económicos.
17 Humanidades A ideia de uma sociedade que prospera mediante pensamento crítico e empenhado perdeu-se. Como resolver este mal-estar? Compreendendo que o cerne da vida humana é o processo pelo qual nos tornamos indivíduos com carácter, com voz e com uma visão do mundo. (Human – Yann Arthus-Bertrand)
18 Humanidades A vida tem que ser criada por nós, uma criação nossa e não um produto social. Submeter-se ao dogma das listas dos mais isto ou aquilo é viver permanentemente com medo de perder a sua visibilidade, o seu lugar no ranking. Eis o medo da insignificância.
19 Humanidades Como sair daqui?Restabelecendo uma cultura de argumentação fundamentada. Recuperando as Humanidades.
20 Humanidades No seguimento do paradigma do sucesso rápido, a todo o custo e, de preferência, sem muito trabalho, o ser humano deixou de investir no conhecimento em si mesmo para investir no que leva aos lugares nos rankings. As escolas e as universidades foram pressionadas a fornecer cursos que funcionem como cartões de acesso a profissões lucrativas.
21 Humanidades Sem recursos interiores independentes para avaliar o valor das ideias, das políticas, da produção cultural e dos modos de vida, a mente fica sem nada a não ser a popularidade das mercadorias globais e o ranking do eu .
22 Humanidades Se medirmos o valor das ideias e das crenças pelo número de pessoas que as sustentam, o vídeo de Britney Spears tem mais valor do que a Missa em Si Menor de Bach. O nosso sistema de informação-entretenimento vive desta classificação dos seres humanos.
23 Humanidades Temos urgentemente que investir na construção da nossa visão do mundo; nossa, construída por nós. Refletir, problematizar, discutir, fundamentar. As Humanidades permitem apelar à nossa imaginação, interpretar o mundo que nos rodeia, representar a experiência humana.
24 Humanidades Interpretar, inferir, decidir, analisar são chaves para a vida. As Humanidades incitam à leitura, a leitura à mobilização dos saberes adquiridos e à construção de novos. Quando um leitor lê um texto novo, enquadra essa leitura na biblioteca que traz na mente; esse texto entra em diálogo com os outros mobilizando e alargando o seu mundo e a compreensão do ser humano.
25 Humanidades Fruindo a literatura, ou outra expressão de arte, o aluno reencontrará “a memória de uma cultura, a tensão da história, os conflitos ou as harmonizações de ordem ideológica, as estratégias discursivas que legitimam ou corroem o poder, a criação dos mundos possíveis que representam a modelização na língua e para além da língua, de alternativas, de projetos de vida.” (Silva: 2010) (Memorial do Convento – Saramago)
26 Humanidades Os textos literários têm a função insubstituível de reinventarem a língua, reinventarem o homem, logo, de permitirem perspetivar a reinvenção do mundo. Para que isto aconteça, analisar um texto terá que acontecer sem destruir o mistério que ele contém, sem eliminar a emoção da descoberta, sem impedir a aventura textual.
27 Humanidades A escola deverá formar leitores para toda a vida, leitores que saibam procurar e entrever conhecimento nos textos literários. Para o efeito, é indispensável alcançar um conhecimento profundamente ligado às emoções e aos afetos. “As emoções e os afetos são indissociáveis do conhecimento do mundo e da vida e do conhecimento de si próprio que o texto literário possibilita e desenvolve no leitor.” (Silva: 2010)
28 Humanidades A arte de ler e de interpretar deve induzir e incentivar nos alunos o desejo e o gosto de escrever. Essa arte será interiorizada pela fruição e não pela massacrante e entediante tortura analítica em que os jovens são metralhados com conceitos e pseudoanálises estéreis.
29 Humanidades O texto literário aponta para um horizonte de liberdade, de criatividade, nunca para uma saída única e castradora. Os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem, logo, alarguemos esse mundo através da fruição da arte da palavra. Assim, o mundo das possibilidades, do sonho, não terá fim.
30 Humanidades É através da palavra que o ser humano vai construindo o seu “modelo” do mundo e vai tecendo a teia do imaginário e do sonho. Retórica no passado, competência comunicativa no presente. Esta competência enraíza-se numa espessura do tempo histórico, na memória de uma cultura, na polifonia da intertextualidade.
31 Humanidades Saber falar e escrever até obter uma boa competência comunicativa implica demorados e complexos processos de natureza cognitiva, social e cultural. A língua, tal como a poesia, é energia, mobilidade, viagem e horizonte. A literatura é jogo, catarse, evasão, terapia, mas é, conjuntamente com tudo isto, forma de conhecimento.
32 Humanidades Com a voragem comunicacional das novas tecnologias, os nossos alunos comunicam nas redes sociais sem qualquer preocupação pelo uso correto da linguagem. Ao procurarem conhecimento através deste meio, encontram uma biblioteca de fragmentos onde não desenvolvem o raciocínio, nem a concentração.
33 Humanidades Eduardo Lourenço alerta para o perigo de a escola permitir a construção de uma “Disneylândia cultural”, sem a profundidade necessária à construção de um ser humano humanista.
34 Humanidades “Um cientista sabe que a sua grelha é um dos instrumentos para se ler o mundo, mas nunca o único, nem o melhor. Sabemos que Kant, Tolstói ou Beethoven nos deliciaram e apontaram caminhos... e não tinham laboratórios.” João Paiva (doutorado em Ensino e Divulgação das Ciências) In
35 Humanidades Referências:BLOOM, Harold. Como Ler e Porquê. Caminho LOURENÇO, Eduardo. O Labirinto da Saudade. Pub. D. Quixote SILVA, Vítor Manuel de Aguiar. As humanidades, os estudos culturais, o ensino da literatura e a política da língua portuguesa. Almedina STEINER, George. Gramáticas da Criação. Relógio d’Água STRENGER, Carlo. O Medo da Insignificância. Lua de Papel. 2015