Teoria do Imperialismo: paixões e críticas – Uma reflexão política Professor Antonio Roberto Espinosa Aula 2: “O conceito de imperialismo a partir da obra.

1 Teoria do Imperialismo: paixões e críticas – Uma reflex...
Author: Luiz Gustavo Carneiro Dias
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1 Teoria do Imperialismo: paixões e críticas – Uma reflexão política Professor Antonio Roberto Espinosa Aula 2: “O conceito de imperialismo a partir da obra de Lênin, as adesões e as críticas” Centenário de publicação de Imperialismo, a fase superior do capitalismo, de Lênin.

2 Dante: A divina comédia. Citado por Lênin, Marx etc...“O caminho do inferno está pavimentado por boas intenções”. [... E também por gargalhadas.] O resultado prático da teoria muitas vezes é a tragédia.

3 ... E posso não lhe agradar “Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo Estava fora de lugar, eu vivo pra consertar Na boiada já fui boi, mas um dia me montei Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu (...)” (“Disparada”, de Geraldo Vandré/Theo de Barros)

4 A busca da verdade e a inquietação revolucionáriaFernando Pessoa, sobre a paixão entre teoria e a prática (“Palavras iniciais da Revista de Comércio e Contabilidade”) “Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não reparando que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria. Quem não sabe nada dum assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama «teórico» a quem sabe mais, e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas não sabe aplicar - isto é, quem afinal não sabe, porque não saber aplicar é uma maneira de não saber -, tem rancor a quem aplica por instinto, isto é, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem são de espírito e equilibrado de inteligência, há uma separação abusiva. Na vida superior a teoria e a prática completam-se. Foram feitas uma para a outra”.

5 Duas revoluções e uma teoria que explodiu as consciências e verdadesDuas revoluções, duas visões do mesmo e velho mundo: A Revolução (política) Francesa e a generalização do Republicanismo liberal; A Revolução (social) de Outubro e o Internacionalismo proletário. Na segunda metade do século XX, sob o impacto da corrida tecnológica desenfreada e à luz do confronto nuclear.

6 A Teoria do Imperialismo e o Marxismo-leninismoA vitória bolchevique de outubro e na guerra civil russa ( ) alçaram as obras de Lênin à altura das de Marx e Engels. E acrescentaram um subtítulo ao nome da doutrina: MARXISMO-LENINISMO. Que, depois, foi ganhando outros epítetos: Marxismo-leninismo-stalinismo Marxismo-leninismo-stalinismo-maoísmo.

7 O “Imperialismo: fase superior...” e a Terceira Internacional1916 (texto)-1917 (publicação), em plena Primeira Guerra, meses antes da Revolução Bolchevique, de Imperialismo: Fase superior do capitalismo. Traduzido de diversas formas. Inclusive como “Imperialismo, última etapa do capitalismo” e “Imperialismo: fase final do capitalismo”. 1919 (Fundação)-1943 (Fechamento): III Internacional (Comintern ou Komintern). Transformação da Teoria em Doutrina do Imperialismo. [Um modo de enxergar, definir e estruturar a análise sobre a realidade internacional e procurar orientar a revolução, compartilhado por pessoas, intelectuais e partidos de todo o planeta. (Fim da Guerra Fria e desagregação soviética): Cominform. Órgão do PC da URSS para o relacionamento e coordenação de atividades com os demais Partidos Comunistas, sobretudo das duas Europas.

8 As pegadas de Lênin nas novas doutrina e estratégia proletáriasUma interpretação do capitalismo russo: O desenvolvimento do capitalismo na Rússia e O trabalho da mulher na fábrica (1899) A teoria do elo mais fraco na cadeia capitalista. Uma Doutrina da Revolução: Um passo à frente, dois passos atrás (1904) A revolução na Rússia (1905). Uma Teoria do Estado: O Estado e a Revolução (1917) Uma Teoria dos Partidos Políticos: O que fazer (1904) Um partido de quadros de vanguarda, organizado segundo os princípios do centralismo democrático. Uma Doutrina das Relações Internacionais: A Teoria do Imperialismo. Imperialismo, fase superior do capitalismo (1916)

9 Estrutura dessa exposiçãoTrês considerações preliminares sobre a política, teorias e doutrinas; A obra: Imperialismo – Fase superior. Título, conceitos estruturantes, análises. O que é e o que não é; Apoios e desenvolvimento. Doutrina do século XX e Teoria da Dependência; Críticas teóricas variadas de quatro tipos: Realista; Liberal; Marxista; Teoria do Império e das multidões.

10 Bibliografia sumária ALTHUSSER, Louis. Sobre o trabalho teórico. Biblioteca de Ciências Humanas. Lisboa: Presença, BORÓN, Atilio A. Império e imperialismo – Uma leitura crítica de Michael Hardt e Antonio Negri. Buenos Aires: Glacso, CASTORIADIS, Cornelius. “A pólis grega e a criação da Democracia”. In: As encruzilhadas do labirinto. Rio de Janeiro: Paz e terra, vol. 2, CHESNAIS, François. A finança mundializada. São Paulo: Boitempo Editorial, DAHL, Robert. Poliarquia – Participação e oposição (Pp , e ). São Paulo: Edusp, ESPINOSA, Antonio Roberto. “Marxismo e as Relações Internacionais”. In: VARELLA NEVES, André (org.). Teoria das Relações Internacionais – As questões mundiais em debate. Rio de Janeiro: Vozes, FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. (25ª ed.) Rio de Janeiro: Graal, GORENDER, Jacob. Karl Marx. “Introdução”. Os economistas. São Paulo: Abril Cultural, 1982, pp. II-XXIII GORENDER, Jacob. Marxismo sem utopia. São Paulo: Ática, 1999, pp , 43-53, GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, LENIN, Vladimir I. U. Imperialismo: fase superior do capitalismo. São Paulo: Global Editora, LOSURDO, Domenico. Fuga da história? – A revolução russa e a revolução chinesa vistas de hoje. São Paulo: Editora Revan, LUXEMBURGO, Rosa. “The problem of dictatorship” (cap. 6). In: The Russian revolution (1918). Disponível na Internet em Arquivos Marxistas MARX, Karl. El capital. Buenos Aires: Editorial Cartago, Para a crítica da economia política/ O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, MIGUEL, Luiz Felipe. “A democracia domesticada: bases antidemocráticas do pensamento democrático contemporâneo”. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro, NEGRI, Antonio. 5 lições sobre o Império. Coleção Política das Multidões. Rio de Janeiro:DP&A, 2003, pp e De volta. Rio de Janeiro/Record, 2006, pp , e OLIVEIRA, Francisco de. “O surgimento do antivalor – Capital, Força de trabalho e Fundo público”. São Paulo: Revista Novos Estudos Cebrap nº 22, outubro-dezembro de POULANTZAS, Nikos. Poder político y clases sociales em el Estado Capitalista. Cidade do México: Siglo XXI, TROTSKI, Leon. Nossas tarefas políticas. Disponível em marxists.org/trotsky/1904/tasks/index.htm.

11 Três considerações preliminaresO peso do acaso nos resultados políticos: Diferença entre charlatanismo e ciência. Os vendedores de certezas e vitórias; Maquiavel e Gramsci. 2) A busca da compreensão: O papel da teoria e do exame inteligente e isento da realidade e das experiências. 3) O imperialismo como Teoria e Doutrina: a cultura do movimento comunista no Século XX.

12 Preliminar 1: A natureza da políticaO peso do acaso e do fortuito Não por diletantismo ou vaidade, o mais notável intelectual marxista pós-Engels, o italiano Antonio Gramsci era não apenas marxista mas também maquiavélico; Aceitava a definição da política como arte (não como ciência ou técnica). “Arte da conquista ou da manutenção do poder”; Condenava os “vendedores” de certezas: charlatães, porque a política comporta derrotas mesmo acertando ou derrotas mesmo errando; Dadas as duas dimensões da política: a virtú e a fortuna. E as suas interações dialéticas.

13 Preliminar 1: As duas dimensões da políticaVirtú Fortuna O conjunto de ações, providências e comportamentos que estão na esfera de ação do Príncipe (estadista, político, partido político etc.): Sua vontade Organização e formação de quadros Estudo das circunstâncias Definição de estratégia e táticas. Os fatores que escapam à previsão ou ao controle do Príncipe (ou do Partido político, estadista, cientista etc.): A vontade e táticas do inimigo (quando aplicadas pela primeira vez); As intempéries climáticas; Ciclos da natureza ou de saúde pública (exemplo: epidemias, secas, tempestades etc.).

14 Preliminar 1: Maquavel n’O príncipe (p. 109-110)“Penso poder ser verdade que a fortuna seja árbitra de metade de nossas ações mas que, ainda assim, ela nos deixe governar quase a outra metade. Comparo-a a um desses rios impetuosos que, quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores, os edifícios, arrastam montes de terra de um lugar para outro: tudo foge diante deles, foge ao seu ímpeto”. (Maquiavel, O Príncipe, p. 109).

15 Preliminar 1 “Concluo, portanto, por dizer que, modificando-se a sorte, e mantendo os homens, obstinadamente, o seu modo de agir, são felizes enquanto esse modo de agir e as particularidades dos tempos concordarem. Não concordando, são infelizes”. “[Apesar disso,] Estou convencido de que é melhor ser impetuoso [virtú 1] do que circunspecto [virtú 2] porque a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la”. (Idem, 111).

16 Preliminar 1 “Assim, como disse, dois agindo diferentemente alcançam o mesmo efeito, e dois agindo igualmente um vai diretamente ao fim e o outro não. Disso dependem também as diferenças de prosperidade, pois um se conduz com cautela e paciência e os tempos e as coisas lhe são favoráveis (...). Mas os tempos e as coisas mudam e ele se arruína, porque não alterou o modo de proceder”. (Idem, p. 110)

17 Preliminar 2: A busca da compreensãoSe os fatores compreendidos pela dimensão da fortuna são imprevisíveis e incontroláveis; Se apesar disso, o sucesso depende do esforço em domar a surpresa, reduzindo seu peso nos resultados políticos; Só resta ao estadista (o dirigente ou o militante político) aperfeiçoar sua virtú; Embora consciente do limite do conhecimento, uma das principais virtús é o esforço de compreensão. Logo tem que ser crítico sempre face a teoria e o conjunto do saber, mesmo dos clássicos.

18 Prelininar 2: Lição de um liberal“Embora elegante e econômica, uma teoria deve ser rejeitada ou revisada se não é verdadeira”. John Rawls. Uma teoria da Justiça, p. 3.

19 Preliminar 3: Teoria do ImperialismoAs teorias leninistas em geral, mas a do Imperialismo em particular, possuem uma dupla face; São ao mesmo tempo: Uma teoria que procura dar conta dos eventos internacionais; nesse primeiro aspecto seria produto de uma investigação científica; E uma doutrina que orienta a ação dos comunistas, generalizada pela Terceira Internacional e Cominform. Face a este fenômeno, constitui-se também numa cultura comum aos militantes e manifestações de muita gente.

20 Preliminar 3: Diferenças essenciaisExiste uma Teoria do Imperialismo. ... E também uma Doutrina do Imperialismo. Segundo o realista Raymond Aron: Teoria é uma articulação de conceitos abstratos para dar conta da compreensão de seu objeto (uma parcela claramente definida da “realidade”); e Doutrina é o compartilhamento de um conjunto de valores éticos, estéticos, políticos, linguísticos e morais, que conferem identidade e unidade a um grupo (político, religioso, nacional ou outro). Há teorias que não geram doutrinas. E também doutrinas sem o suporte de uma teoria científica. Mas há teoorias que acabam se confundindo com uma doutrina: é o caso do marxismo-leninismo, que depois se transformou em marxismo-leninismo-stalinismo e em marxismo-leninismo-stalinismo-maoísmo. Nosso objeto aqui: A TEORIA DO IMPERIALISMO.

21 Preliminar 3: Ciência e culturaTeoria científica Cultura comunista Vocabulário compartilhado pela esquerda política a partir da constituição da III Internacional; Conjunto de valores políticos, econômicos e morais; Comunidade de inimigos do imperialismo; Caracterização dos inimigos e riscos para o proletariado; Programas políticos, bandeiras, palavras de ordem e ódios que identificaram o conjunto do século XX; Atribuição de papel às conspirações das agências de informação estrangeiras. Conjunto de conceitos articulados, abstraídos do capitalismo na entrada do século XX; Base: estatísticas e pesquisas. Conceito estruturante: Domínio da fração financeira; Monopolização da propriedade; Associação dos monopólios com o Estado; Divisão imperialista do mundo para a reserva, sobretudo, das fontes de matérias-primas; A conquista de novos territórios e/ou colônias: pela guerra.

22 O título da obra: “Fase superior” ou “Última etapa do capitalismo”?Lênin descreve o imperialismo como uma nova fase do capitalismo, que contrasta com a etapa anterior (a do capitalismo concorrencial, com uma multiplicidade de empresários competindo no mercado; A mesma obra foi traduzida para o Português também com os títulos: Imperialismo, último estágio do capitalismo Imperialismo, última etapa do capitalismo Esses títulos sugerem que, embora superior, esse momento também teria levado o capitalismo às últimas consequências, preparando sua própria destruição.

23 Imperialismo X Fase concorrencial“O que, sob o ponto de vista econômico, existe de essencial nesse processo é a substituição da livre concorrência capitalista pelos monopólios capitalistas. A livre concorrência constitui o tipo essencial de capitalismo e de produção mercantil em geral; o monopólio é exatamente o contrário da livre concorrência; mas nós vimos que esta última, sob os nossos olhos, em monopólio [sob a forma de “cartéis, sindicatos patronais, trustes”]. Lênin. Imperialismo..., p. 87.

24 Imperialismo: antecâmara do socialismo e do fim da história?A sugestão de “fim da história”, que evoca a fase hegeliana (pré-marxista) de Marx. Diz Lênin respectivamente nos prefácios das edições francesa e russa: “A produção torna-se social mas a apropriação continua privada. Os meios de produção sociais permanecem propriedade privada de um pequeno número de indivíduos. O quadro geral da livre concorrência (...) subsiste e o jugo exercido por um punhado de monopolistas sobre o restante da população torna-se cem vezes mais pesado, mais sensível, mais intolerável”. (Lênin, idem, p. 25) “O imperialismo é o prelúdio da revolução social do proletariado. Após isto ficou confirmado à escala mundial”. (idem, p. 14). .

25 A falência da profecia teleológicaO imperialismo monopolista tornou-se oligopolista; Este assistiu ao domínio completo da fração financeira do capital, ou a mundialização financeira, e das tecnologias, ingressando na globalização ou na sociedade pós-industrial; O capitalismo persiste. Quem não aguentou a competição foi o socialismo real. O bloco socialista se desagragou após a Queda do Muro de Berlim em 1989 e a URSS desapareceu em 1991.

26 Reflexões de esquerda sobre o imperialismoA expressão “imperialismo” no sentido moderno, como domínio econômico, de monopólio, ou apropriação das riquezas dos subdesenvolvidos pela força, foi criada muito antes de Lênin; No campo socialista, o próprio Karl Kautsky (e seu conceito de ultraimperialismo) e Rudolf Hilferding (O capitalismo financeiro), o autor mais respeitado por Lênin, escreveram abundantemente sobre a questão; A questão dos cartéis e dos trustes, contudo, foi objeto de críticas acerbas dos liberais; Mesmo autores ultranacionalistas, sobretudo na Alemanha, reclamavam uma postura mais imperialista do seu Estado.

27 Origens da Teoria do ImperialismoNacionalismo supremacista Liberalismo Inconformismo com os cartéis e trustes e desaparecimento da livre concorrência. Suposto ingresso do capitalismo na ilegalidade suicida. Principais autores: John Hobson (maior inspirador de Lênin, autor de O imperialismo), o francês J. Patoullet (O imperialismo americano), o inglês Edgard Crammond etc. Glória decorrente da expansão da influência nacional, sobretudo na Alemanha. Conquista de colônias e semicolônias: forma de obtenção de sobrelucro, para acalmar operários internos. Principais autores: os alemães Schulze-Gavernitz e Gerard Hildebrand, o holandês Sartorius von Waltershausen, os russos Potresov, Tachkhenkéli, Máslov etc.

28 Aspectos estruturantes da Teoria do ImperialismoConcentração do capital e formação de monopólios (cartéis, trustes), superando a fase concorrencial; Concentração do capital nas mãos dos bancos e dominação da fração produtiva pela fração financeira do capital; Unificação entre o capital financeiro monopolista e o Estado; Estado se transforma em Estado rentista, que serve ao capital monopolista; capital agiota e Estado agiota; Nova partilha colonial, com a divisão da África e da Ásia pelas potências imperialistas européias (Alemanha, França, Inglaterra, Bélgica), Japão e EUA, para a garantia de matérias-primas; Com a redistribuição de todos os territórios, a única forma de conquistar colônias ou abrir novos mercados é a guerra. Imperialismo belicoso.

29 “O regime econômico e social superior”“O imperialismo surgiu como desenvolvimento e sequência direta das propriedades essenciais do capitalismo em geral. Simplesmente, o capitalismo só se transformou no imperialismo capitalista num dado momento, muito elevado, do seu desenvolvimento, quando certas características fundamentais do capitalismo começaram a se transformar no seu contrário, quando se formaram e se revelaram plenamente os traços de uma época superior. O que, sob o ponto de vista econômico, existe de essencial nesse processo é a substituição da livre concorrência capitalista pelos monopóplios capitalistas (...). Diríamos que ele é a fase monopolista do capitalismo”. Lenin. Imperialismo, p. 87.

30 “As cinco características fundamentais” do imperialismo“1) concentração da produção e do capital atingindo um grau de desenvolvimento tão elevado que origina os monopólios cujo papel é decisivo na vida econômica; 2) fusão do capital bancário e do capital industrial, e criação, com base ‘nesse capital financeiro’, de uma oligarquia financeira; 3) diferentemente da exportação de mercadorias, a exportação de capitais assume uma importância muito particular; 4) formação de uniões internacionais monopolistas de especialistas que partilham o mundo entre si; 5) termo de partilha territorial do globo entre as maiores potências capitalistas”. Lenin. Imperialismo, p.88.

31 “Tendência à estagnação e a decomposição”“Como monopólio que é, [o imperialismo] gera inevitavelmente uma tendência para a estagnação e a decomposição. Na medida em que se estabelecem, ainda que momentaneamente, preços de monopólio, isso fará desaparecer até certo ponto os estímulos do progresso técnico e, por consequência, de qualquer outro progresso; e então torna-se possível no plano econômico, travar artificialmente o progresso técnico”. Lenin. Idem, p. 98.

32 “Os publicistas burgueses”“Os mestres e os publicistas burgueses defendem geralmente o imperialismo sob uma forma velada; dissimulam nele a dominação total e as suas profundas raízes; esforçam-se por colocar em primeiro plano particularidades, detalhes secundários, aplicando-se em desviar a atenção do essencial através de fúteis projetos de ‘reformas’, tais como a fiscalização dos trustes e dos bancos, etc. Os imperialistas confessos, cínicos, que têm a coragem de confessar como é absurdo o querer reformar os traços essenciais do imperialismo, esses são raros”. Lenin. Idem, p

33 Omissões sintomáticas de Lênin: os conceitos de valor e mais valiaEm nenhum momento, em qualquer passagem de Imperialismo, fase superior do capitalismo, Lênin usa os seguintes conceitos: Valor ou valor de uso. Mais valia, mais valia absoluta ou mais valia relativa. Tais conceitos são centrais na construção teórica de O Capital. Ao invés deles, ele utiliza conceitos caros à ciência econômica burguesa, como: Lucro, retorno do capital; Investimento etc.

34 Apoios e desenvolvimento da Teoria do ImperialismoO legado leninista, da III Internacional: Teoria e Doutrina (cultura) do Imperialismo: Stalinismo. Teoria do Socialismo num só país; Trotskismo. Teoria da Revolução Permanente. IV Internacional. Teoria da Dependência: Centro e Periferia do sistema internacional: Rui Mauro Marini; Teotônio dos Santos; Michael Löwiy; Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto; Cepal (Centro de Estudos para a América Latina, da ONU).

35 Resistências ao leninismo no campo do marxismoRosa Luxemburgo. Sobretudo contra a propositura da Ditadura do Proletariado e a suspensão da Constituinte. Antonio Gramsci. Contra a ideia de Ditadura do Proletariado. Em contraposição a isso propunha a hegemonia do proletariado. Contra a Teoria do Imperialismo. Contra isso propunha a noção de Bloco Histórico, conjunto de ideias que serviria para a compreensão da conjuntura internacional. Não aprofundaremos uma coisa ou a outra, pois a questão central é a compreensão da Teoria da Dependência, variante da Teoria do Imperialismo, e seus críticos realistas e liberais.

36 A Teoria da DependênciaVersão mais sofisticada e moderna da Teoria do Imperialismo; Aplicada pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), da ONU; Desenvolvida sobretudo por Rui Mauro Marini; Admite a possibilidade de crescimento econômico sob o imperialismo, mas sempre subordinado às metrópoles imperialistas, conservando os mudos desenvolvido e subdesenvolvido separados.

37 Desenvolvimento desigual e combinado da periferiaA ideia de que o imperialismo se teria transformado numa espécie de capitalismo rentista e oligárquico, fadado à estagnação e à decomposição, de Lênin, foi superada pela Teoria da Dependência; Esta, contudo, estabeleceu que o desenvolvimento associado se daria sempre num patamar inferior e que, apesar do virtual crescimento, as desigualdades dentro do sistema mundial se manteriam ou se ampliariam; A lógica do desenvolvimento capitalista condenaria a periferia a ser sempre periferia, embora podendo eventualmente beneficiar-se de algum crescimento.

38 Divisão estrutural do mundo: Imperialismos e imperializadosPaíses centrais: exportadores de capitais (na forma de empréstimos e créditos), produtos manufaturados e tecnologias. E importadores de matérias-primas (ou produtos com baixo valor agregado); Países periféricos: até poderiam substituir importações, industrializando-se, mas utilizando forças produtivas num grau inferior de desenvolvimento. Submetidos tecnologicamente e dependentes de capitais. Reprodução ampliada do capital e das desigualdades, conservando sempre a dependência: Imperialistas X imperializados. E Imperialismos X imperialismos.

39 Centro (Norte) e periferia (Sul) na Teoria da DependênciaCentro do centro. Países, economias e burguesias dominantes no sistema mundial, ou na cadeia imperialista; Periferia do centro. As economias capitalistas adiantadas, mas dependentes do centro do sistema. ... E também as aristocracias operárias. As classes subalternas dos países centrais. Que teriam condições de vida superiores graças ao rentismo de seus Estados e burguesias nos países mais atrasados. Norte. Centro da periferia. Países industrializados ou semi-industrializados, que atuariam como cabeças de ponte do imperialismo; ... E também as burguesias locais, integrantes da cadeia da dominação; Periferia da periferia. As nações agrícolas, extrativistas ou fornecedoras de matéria-prima. A última linha da cadeia imperialista; ... E também o proletariado da periferia, explorado pelas burguesias locais e, indiretamente, pelas matrizes do capital internacional. Sul.

40 As teorias do Imperialismo e da Dependência são teorias do quê?Ambas se pretendem Teorias das Relações Internacionais, que explicam a guerra e a paz; Tratam a guerra interestatal como uma espécie de guerra civil internacional; São na verdade, teorias supostas da luta de classes, ou da luta de classes no plano internacional. Explicam a política e a guerra a partir da economia. São teorias políticas ou econômicas?

41 O que é uma teoria? Não é um dado da realidade concreta... Mas da realidade abstrata, da cultura. É um instrumento de compreensão do mundo, o único possível. Para dar sentido à anarquia em movimento. Conforme Marx, o único método científico correto é aquele que se eleva do abstrato ao concreto, dos conceitos mais simples aos mais concretos. E se refere a um objeto muito claramente definido. Uma articulação de conceitos abstratos para dar conta da compreensão de seu objeto (uma parcela claramente definida da “realidade”).

42 A dupla relação de uma teoriaCom seu objeto. Ou com a “faceta” ou “aspecto da realidade do mundo” que ela procura explicar. Ela precisa “dar conta” de todos os fenômenos da sua área. Consigo própria. Uma teoria precisa ser internamente coerente. O conjunto de seus conceitos tem que ser logicamente coerentes, para manter sua força de convincente.

43 Vida e morte das teoriasA presença de anomalias. Ou informações da realidade (fatos concretos) que contrariam as teorias ou a desautorizam. A multiplicação das lacunas (fatos não explicados na sua área de abrangência) ou das anomalias (fenômenos que evidenciam seus equívocos) mostra a superação histórica ou a incongruência de uma teoria. As inconsistências ou incoerências lógicas fazem com que os conceitos internos se anulem, tornando a teoria heuristicamente condenável. Teorias podem ser assassinadas (pela história) ou suicidas (devido a suas incompatibilidades lógicas).

44 Duplo teste das teoriasO teste lógico e epistemológico. Da compatibilidade interna de seus conceitos. E da resistência à crítica ordenadamente exposta. O teste empírico. Ou dos fatos. Ou da sua adequação aos fatos que elas, em última instância, procuram explicar.

45 Raymond Aron: Imperialismo não entende o sistema da Guerra FriaO sociólogo francês Raymond Aron ( ), realista, em Os últimos anos do século, escrito em 1982 (Rio: Editora Guanabara 1987), diz que a Teoria do Imperialismo não consegue “pensar” de forma adequada a Guerra Fria; Embora ele fosse pessimista no diagnóstico a respeito do Ocidente na virada do século XX para o XXI, pensava isso a partir de um enfoque realista, não do imperialismo; Para ele, a política (não a economia) constituiria um sistema abrangente para uma teoria das Relações Internacionais.

46 Teoria e sistema Só é possível o pensamento organizando as informações sobre os fatos num sistema de pensamento coerente; Os fatos que não integram um sistema são impensáveis; Para a inteligência, eles inexistem; O que é um sistema, segundo Kenneth Waltz? É uma totalidade complexa mais: 1) seus sujeitos (em interações diversas) e 2) seus princípios ordenadores (de socialização e competição).

47 Aron: as interações Norte-Sul não constituem um sistema internacionalAs Teorias do Imperialismo e da Dependência, ao estruturar uma visão de mundo com base na exploração, procuram compreender somente o mundo capitalista, opondo desenvolvidos (Ricos, Norte ou Centro) e os subdesenvolvidos (Pobres, Sul ou Periferia); Mesmo as noções de Periferia do Centro e Centro da Periferia dizem respeito apenas ao Sistema Capitalista; Não incluem o mundo socialista (que não estaria no Centro, nem na Periferia), mas à margem do mundo capitalista, embora usando o Dólar como moeda de referência. A noção de Guerra Fria, por conseguinte, não compreende o conjunto dos atores do sistema. Logo não consegue formar um sistema. E não pode dar conta das oposições e interações. O que forma sistema é outro tipo de interação...

48 A contradição política Leste-Oeste definia o Sistema da Guerra FriaUm Sistema Internacional da Guerra Fria deveria ser o resultado das interdeterminações de dois subsistemas: o econômico e o polítco. E ele dividia o mumdo em Leste X Oeste. A Teoria do Imperialismo só dava conta, e incompleta, de um dos subsistemas, o capitalismo; A única teoria que integra todos os atores do subsistema é a realista, que entende a política como correlação de forças, à sombra da guerra, num quadro com armas de destruição total, que não poderia, por conseguinte, se efetivar: daí a Guerra Fria. Ela constitui um subsistema político completo, que se oferece à compreensão. Apesar do pessimismo de Aron (para quem a guerra poderia destruir a todos ou ser vencida pelo outro lado), ganhou quem foi capaz de pensar esse sistema.

49 A política, e não a economia, define o Sistema InternacionalO objeto de entendimento de uma Teoria Política Internacional deve explicar as questões da paz e da guerra; Por que se faz e como se faz a guerra e/ou como se constitui a paz e que tipo de paz; A Teoria do Imperialismo é apenas econômica, e procura compreender somente a relação entre riqueza e pobreza. Portanto não é uma Teoria das Relações Internacionais.

50 Norberto Bobbio: o marxismo como uma teoria econômica e equivocadaO cientista político e jurista italiano Norberto Bobbio ( ), socialista liberal e teórico realista, no artigo “Relações Internacionais e marxismo”, de 1981 (Nem com Marx, nem contra Marx. Ed. Unesp, 2004), tratando da Teoria do Imperialismo mas generalizando para todo o marxismo, diz que o internacionalismo proletário não é uma Teoria das Relações Internacionais. Apenas uma ideologia (ou doutrina) equivocada. Sua crítica passa por considerações acerca de uma teoria das relações internacionais.

51 O que é uma Teoria das Relações InternacionaisUma teoria da paz e da guerra, uma subárea da Teoria Política, como em Clausewitz, que envolve, portanto, a articulação de: Uma Teoria Geral da Política; Uma Teoria do Estado; e Uma Teoria da Guerra. O “marxismo” e o próprio O Capital seria somente uma teoria econômica do Modo de Produção Capitalista, sob a ótica da luta de classes (no máximo da guerra civil entre proletários e burgueses). Sem articular as Teorias Gerais do Estado, da Política e da Guerra, o marxismo não seria uma Teoria das Relações Internacionais. Seria somente uma doutrina historicista da luta de classes.

52 Causas da guerra segundo as teoriasRealismo. As guerras seriam sempre interestatais e envolveriam soberanias rivais. Um fenômeno inerente à natureza humana e ao cenário internacional anárquico. Conceito central: correlação de forças. Liberalismo. A guerra seria uma decorrência das autocracias. As autocracias guerreiam entre si e guerreiam contra as repúblicas. A liberal-republicanização permitiria a construção da paz perpétua. Marxismo. O imperialismo seria belicoso e todas as guerras seriam guerras de conquista imperialista. Derrotado e imperialismo e construídos regimes socialistas, as guerras desapareceriam, pois duas repúblicas proletárias não guerreiam entre si.

53 O marxismo explica a guerra a partir da guerra civil, o externo pelo internoOs círculos de abrangência dos fenômenos da economia e da guerra seriam coincidentes; Todas as guerras seriam imperialistas e todos os imperialismos seriam agressivos e guerreiros; A competição interimperialista levaria necessariamente à guerra; Os dois círculos se sobreporiam um ao outro: o da competição econômica e o da guerra; A lógica da guerra civil (interna) explica a guerra externa; As relações internacionais seriam a luta de classes no ambiente interestatal.

54 O que escapa da abordagem marxistaSegundo Norberto Bobbio, o marxismo não é uma Teoria das Relações Internacionais e, por isso: Não consegue explicar as guerras pré-capitalistas. É omisso em relação a elas; Apresenta três anomalias: Os imperialismos pacíficos (como o chinês) escapam à sua compreensão; Também escapam à sua compreensão as guerras não econômicas, por exemplo, por territórios ou dinásticas; ... E escapam à sua interpretação as guerras entre Estados socialistas, que não seriam imperialistas, como a guerra entre Vietnã e Camboja, entre China e Vietnã, além do conflito sino-soviético.

55 O reducionismo marxistaO marxismo, segundo Bobbio, reduz o complexo, as Relações Internacionais, ao simples (a luta econômica de classes). Não é uma teoria da guerra (reduz todas as formas de violência ao que seria a guerra civil); Não é uma teoria geral da política, como disputa pelo poder. Não é arte, nem ciência; Não contém uma teoria do estado, porque reduz sua compreensão somente à economia, e de um único modo de produção. Por isso, os fenômenos de outra natureza lhe escapam. E ele os ideologiza, cometendo erros trágicos para os trabalhadores e o proletariado.

56 Uma crítica marxista da Teoria do Imperialismo (1-4)A crítica mais séria que talvez se possa fazer à Teoria do Imperialismo e à Teoria da Dependência é que Lênin se afastou do materialismo histórico e dialético. Ou seja, do próprio Marx; Na Introdução à Crítica da Economia Política (de 1857), Marx diz que o método científico consiste em ir do abstrato ao concreto. Do mais simples ao mais complexo. Lênin fez o contrário: partiu do concreto e assimilou a revolta liberal contra os trustes; N’O Capital, para criar as teorias do valor e da mais valia, ele dispensou ideias como oferta e procura e posturas com a malandragem e a esperteza. Ao invés disso, partiu do pressuposto de que todas as mercadorias seriam trocadas pelo seu valor, inclusive a força de trabalho, e cada uma delas usada segundo o seu valor de uso. Dessa forma procurou resolver lógica e conceitualmente a seguinte questão: como é que a partir da troca de equivalentes surge um valor excedente, ou seja o capital variável.

57 Uma crítica marxista da Teoria do Imperialismo (2-4)Ao explicar a transição do capitalismo concorrencial ao capitalismo financeiro (ou seja, a capacidade do banqueiro de fabricar dinheiro na circulação), Lênin não teria se afastado do método de busca da lógica do sistema? E teria sucumbido à explicação mais fácil da existência de um demiurgo transformando a própria realidade? Ao introduzir fatores como a esperteza dos Estados na nova partilha colonialista do mundo, para garantir o monopólio de matérias-primas, Lênin não teria aberto as comportas para algo como uma Teoria da Conspiração, algo estranho ao esforço científico d’O Capital? Ou seja, não teria caído na tentação de explicar o mais moderno pelo mais antigo e tosco, o capitalismo financeiro pela acumulação primitiva necessária ao advento do capitalismo.

58 Uma crítica marxista da Teoria do Imperialismo (3-4)A Teoria do Imperialismo (e outros acréscimos de sua autoria) não seria o ingrediente teórico para a transformação do marxismo de teoria em doutrina da III Internacional e da sectarização política? Para o abandono da reflexão teórica e a incapacidade de entender as mudanças que se operavam no próprio seio do capitalismo, uma crise após a outra? Ela não teria contribuído para o empobrecimento teórico das disputas políticas na esquerda e para a formação de uma espécie de seita religiosa adversária que inibiu a produção científica, a livre manifestação das camadas populares e o debate criativo de ideias e políticas?

59 Uma crítica marxista da Teoria do Imperialismo (4-4)Que relação o apequenamento científico e da reflexão política têm com a vida política e a formatação da universidade e perda de abrangência da ciência soviéticas? Qual a relação da restrição teórica com a prática política das lideranças comunistas internacionais? Que peso tudo isso teve para a solidificação de práticas autoritárias no interior do bloco socialista, a derrota da perestroika e da glasnost e a própria desagregação da URSS?

60 Negri e Hardt: Teoria do Império X Teoria do ImperialismoToni Negri (1933-), filósofo italiano, ex-membro das Brigadas Vermelhas, e Michael Hardt (1960-), americano, refletindo sobre os constrangimentos da globalização contemporânea, criaram a Teoria do Império; Obras (algumas em conjunto dos dois autores): O labor de Dionísio – Uma crítica da forma Estado (2001) Império – A nova ordem da globalização (2002) Multidão – Guerra e Democracia na nova ordem imperial (2004). Uma busca de definições para a sociedade pós-industrial (desaparecimento do campesinato, redução do peso da classe operária, anonimização da propriedade, busca desenfreada de aumento da massa de mais valia, desencontro das esquerdas políticas)

61 O advento do Império Nova “organização” de escala mundial;Superação do Estado-nação. Não se trata de um mega-estado-nação, mas de um fenômeno novo; Sobreposto ao Estado-nação e que não corresponde a qualquer deles; Que submete todos os Estados-nação, inclusive os EUA (o Estado dos Estados Unidos da América, a ex-hiperpotência mundial); Equivale ao enigmático e monstruoso “mercado” – ou às leis objetivas e estranhas do mercado, tão fantasmagóricas quanto a guerra ao terrorismo.

62 O que o Império não é “Entendemos por ‘Império’ uma coisa bem precisa: uma transferência de soberania dos Estados-nação para uma entidade superior. Essa transferência quase sempre tem sido entendida de acordo com uma ‘analogia interna’, ou seja, como se o Império fosse implicitamente um Estado-nação do tamanho do mundo. No interior dessa banalização existe a ideia bastante difusa de que o Império corresponde aos Estados Unidos. Nós insistimos, pelo contrário, no fato de que as grandes transferências estão acontecendo, na esfera militar, na esfera monetária e na esfera cultural, política e das linguagens, não podem ser reduzidas a nenhuma analogia interna; o que significa dizer que a estrutura do Império é radicalmente diferente da estrutura dos Estados-nação”. Negri. De volta (2006), p

63 ...O que é Império? “A acumulação desses processos determinou desequilíbrios em nível mundial, e a passagem para o Império se deu, na realidade, com muitos conflitos extremamente violentos. O processo imperial é contraditório ao mesmo tempo por sua origem e por seu desenvolvimento. Hoje temos uma governança mundial que procura estabelecer novas formas de governo capazes de se estender a todo o tecido biopolítico da cidadania planetária”. Negri, idem, p. 100.

64 Globalização e vida Se a globalização procura envolver nas trocas tudo que é vivo; Se nada que é vivo escapa aos processos de envolvimento globais; Se a política se equivale à vida; Temos, portanto, a passagem da vida política à biopolítica; Se o Império domina a vida, a luta pela vida conclama a uma luta contraimperial.

65 Biopolítica = Amálgama do poder com a vidaA luta torna-se, efetivamente, uma luta pela vida; A política se apropriou da vida e a vida precisa se reapropriar da política; Em todos os enfrentamentos, ou melhor, todas as situações tornaram-se vitais e globais; Biopolítica tem o mesmo sentido de biopoder em Michel Foucault.

66 Definição de biopolítica“Literalmente, ‘biopolítico’ quer dizer entrecruzamento do poder com a vida. O fato de que o poder tenha optado por se inscrever na própria vida, por fazer dela sua superfície privilegiada de inscrição, não é novo: é o que Foucault chama de ‘biopoder’, algo cujo crescimento descreve a partir do século XVIII. Mas a resistência ao biopoder existe. Dizer que a vida resiste quer dizer que ela afirma sua força, ou seja, sua capacidade de invenção, de produção, de subjetivação”. Negri, idem, p. 104.

67 Recuperação do sujeito e da democracia na multidãoNa multidão (somatória de singularidades) Negri reencontra um ator social, mais que isso, um sujeito histórico capaz de transformar a realidade do mundo. Exemplos: os movimentos ambientais de jovens, os movimentos occupy, o Podemos etc.; O futuro se desenha como unidade das diversidades; Como reino da liberdade. Que ele define como “assembleia dos que sabem”; Volta às origens, portanto, por um caminho enviesado.

68 A defesa do imperialismo pelos pensadores da Teoria do ImperialismoEvidentemente os defensores das conspirações imperialistas (ou da Teoria do Imperialismo) reagem em defesa da persistência do imperialismo; Dizem que Negri e Hardt, sob a ideia de Império, ocultam o imperialismo e protegem a potência do mal, os Estados Unidos; Mas tudo isso já é um outro assunto, que fica para outra vez... Ou para muitas outras vezes.