UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL TEORIA E PRÁTICA DE LEITURA - LET01438 PROFA. SOLANGE MITTMANN TURMA A Leituras e escrita de contos de terror.

1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL TEORIA E PRÁT...
Author: Octavio Natal Igrejas
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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL TEORIA E PRÁTICA DE LEITURA - LET01438 PROFA. SOLANGE MITTMANN TURMA A Leituras e escrita de contos de terror para ensino médio ALUNOS: Débora Mota Coelho          Thiago Caetano M. de Oliveira.

2 DADOS SOBRE A OFICINA: GÊNERO: Conto TEMA: Terror CARGA HORÁRIA: 6h/aula - divididas em 4 aulas de 1 horas e 30 min. cada. PÚBLICO ALVO: Turmas de 2º ano do ensino médio. CAPACIDADE DA TURMA: 20 alunos. Oficina oferecida em sala de aula que vale-se de recursos como quadro negro, computador com projetor.

3 DADOS SOBRE A OFICINA: Objetivo: Essa oficina tem o objetivo de trabalhar leitura de contos em sala de aula e de, através de um tema tão recorrente no imaginário adolescente e também tão popular como a temática de terror, trabalhar produção textual, sempre dentro do gênero conto. Justificativa: O tema histórias de terror encaixasse perfeitamente ao gênero textual conto assim como atinge uma possível área de interesse da cultura adolescente. Por esse motivo a escolha de tema. Já o gênero conto, por ser sucinto, favorece um trabalho com texto literário e é possível como produção textual por sua limitação.

4 AULA 01 (1h30min.) Preparação para leitura. (5 min.) Leia as perguntas abaixo e discuta-as com os colegas. 1. Você já assistiu algum filme de terror? 2. Você gosta do gênero terror? 3. Você já leu algum conto de terror? Se a resposta for sim, qual a sua opinião sobre o que leu? 4. Qual a história de terror que você mais gosta ou gostou de assistir ou ler?

5 Primeira leitura: Duração (25min)TEXTO 01:  Além da imaginação - A maldição da guitarra. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5bC7UFD0yUU&list=PLZTaJ9e7JoiLXxHSRZTAThT5qIsD3SzvS&in dex=32 Assistir com a turma o episódio “A maldição da guitarra”. (tempo de duração: 21:12) Antes de iniciar o episódio o professor deve dar uma breve explicação, contextualizar que o vídeo foi retirado da série televisiva “Além da imaginação” que foi ao ar, em sua primeira versão, no ano de Depois outras duas versões surgiram, uma em 1984 e outra em Suas histórias se baseiam em elementos fantásticos como ficção científica e terror. Sua estrutura é composta de histórias curtas, isoladas, isso quer dizer, que encerram-se no próprio episódio e que tem um foco ficcional restrito. Em muito os episódios de Além da imaginação se assemelham com a estrutura dos contos literários.

6 Estudo ao texto: Duração (25min) 1. Escreva em poucas palavras o enredo do episódio. 2. Quem narra a história? 3. Qual o climax da história? Quais os elementos que permitiram antecipar o climax? 4. Quais os principais espaços que podemos identificar no episódio? 5. Aparentemente, quantos dias duram a história contada no episódio? 6. Na sua opinião, a linguagem utilizada pelas personagens é de fácil compreensão para o telespectador? 7. Debata com a turma: a)Você acredita em maldições? b)Compartilhe com seus colegas alguma experiência sobrenatural que já aconteceu com você. c) Por que geralmente as pessoas não acreditam quando alguém conta algum fato sobrenatural? No episódio alguém acredita no personagem quando ele diz que foi a guitarra quem matou a mulher? OBS.: As primeiras sete questões servem para o professor aproximar os elementos do vídeo com os elementos do conto.

7 Segunda leitura: Agora estudaremos um conto do autor Caio Fernando Abreu que em muito se assemelha com o episódio que assistimos. Sua estrutura é restrita aos eventos que interessam para a unidade da história a ser contada, tal qual o episódio “A maldição da guitarra”. A temática proposta no conto invoca elementos fantásticos que levam o leitor a tensão e pode despertar alguma sensação de medo. Duração (25min) TEXTO 02: A gravata - ANEXO 01

8 Estudo do texto: Duração (10min) 1. Explique o que há nos contos apresentados que justifique enquadrá- los no gênero terror. 2. Descreva o modo como os objetos “mágicos” são tratados nos contos. 3. Escreva sobre a influência dos narradores (1ª e 3º pessoa) para a escolha do tempo verbal predominante nos contos.

9 Estudo do texto: 4. Você consegue ver semelhança entre os dois textosEstudo do texto: 4. Você consegue ver semelhança entre os dois textos? Aponte com suas palavras: A MALDIÇÃO DA GUITARRA A GRAVATA narrador tempo espaço personagem principal elemento sobrenatural condição psicológica da personagem

10 AULA 02 (1h30min.) Terceira leitura: Duração (5min)TEXTO 03: microcontos de terror em duas frases Minha filha não para de chorar e gritar no meio da noite. Eu visito o túmulo dela e peço para ela parar, mas não adianta. (Dísponível em: contos-de-terror-em-duas-frases-da-pra-assustar-com-tao-pouco/)

11 Estudo do texto: Duração (25min)1. Aponte, segundo a sintaxe, qual os tipos de sujeito presentes no microconto. 2. Com base no sujeito das orações, que tipo de narrador está presente neste microconto? 3. Quantas orações possui o microconto? E quantos períodos? 4. Mude o narrador para terceira pessoa sem mudar o tipo de sujeito presente no microconto.

12 Dinâmica. Duração (1h) Distribuir as classes em um grande círculo. Pedir que cada aluno pegue uma folha e uma caneta e colocar o nome . Depois instruí-los a escreverem uma introdução para um conto de terror, deixando claro que é apenas uma introdução (ambientalizar o leitor). Em seguida o professor deve recolher todas as folhas e redistribuir, cuidando para que os alunos não peguem seus próprios textos. Após, os alunos darão seguimento ao texto do colega, escrevendo um desenvolvimento. Para concluir, o professor recolhe novamente e redistribui para que outro aluno escreva a conclusão. Com o término da atividade os textos retornam para seus primeiros criadores. A intenção é que cada aluno tenha um texto escrito por três mãos diferentes. Dar tempo para que os alunos leiam seus textos, pedir que alguns leiam em voz alta e discutir sobre o rumo que o conto tomou era o que eles imaginaram quando começaram a escrever

13 AULA 03 (1h30min.) O professor deve retomar os aspectos estruturais do conto a partir dos textos analisados na aula anterior, podendo assim dar início à escrita criativa dos alunos. Importante relembrar: -O texto deve atender aos requisitos que o definem como conto, possuindo início meio e fim. - O conto deve ter como tema o gênero terror. - A história contada deve circular em torno de um conflito basicamente onde tudo, tempo, espaço, personagens, deve servir para a construção e solução desse conflito. Não esquecer de deixar bem claro que os textos serão impressos e disponibilizados na biblioteca.

14 Proposta de escrita Duração (1h30min.) Agora chegou a hora de vocês escreverem o conto. Vocês serão os autores das histórias de terror que farão parte de nosso livro de contos. Abusem da criatividade para a elaboração desse conto, lembre-se que se tratará de uma história de terror, portanto usem de elementos sobrenaturais e assustadores que levem o personagem e o leitor ao susto ou ao medo. Lembrando também que sua história deve possuir um início onde serão apresentados os elementos principais da história como personagens, cenários e também onde se apresentará o conflito principal, um meio por onde esses conflitos serão desenvolvidos e resolvidos e um final onde sua história terá uma conclusão. Essa será a primeira versão de seu texto, que sofrerá ainda uma nova escrita antes da sua versão final que será publicada no livro de contos ao final da atividade. Agora mãos à obra e boa escrita!

15 AULA 04 (1h30min.) Primeiro momento: Duração (30min) Os textos dos alunos serão entregues juntamente com o parecer do professor sobre os pontos a serem melhorados, facilitando assim a reescrita. Segundo momento: Duração (1h) Escrever em conjunto com a turma um texto de apresentação para o livro. O professor pode utilizar o quadro, ou um notebook com um projetor. Publicar os contos dos alunos e disponibilizá-los na biblioteca da escola.

16 OBSERVAÇÃO: Caso os alunos se interessem pela temática, seria interessante, ao final da oficina, entregar para os alunos diferentes contos mais longos como, por exemplo, Edgar Alan Põe. Para que eles fiquem instigados para a nova leitura, o professor pode dar um breve spoiler do que é tratado nos contos e deixar que escolham qual vão querer levar para casa.

17 Resultados esperados Espera-se com a oficina que os alunos tenham a possibilidade de desempenhar um papel de leitor de texto literário do gênero conto e de autor de seu próprio texto, também dentro do gênero conto, com a temática do terror como viés principal. O importante é, principalmente, a possibilidade dos alunos expressarem criatividade e colocarem-se como autores de seus próprios textos literários.

18 Anexo 1 Gravata Caio Fernando Abreu.A primeira vez que a viu foi rapidamente, entre um tropeço e uma corrida para não perder o ônibus. Mesmo assim, teve certeza de que havia sido feita apenas para ele. No ônibus, não houve tempo para pensá-la mais detidamente, mas, no dia seguinte, saindo mais cedo do trabalho, parou em frente à vitrine para observá-la. Era nada menos que perfeita na sua cor vagamente indefinível, entremeada de pequenas formas coloridas, em seu jeito alongado, na consistência que pressentia lisa e mansa ao toque. Disfarçado, observou o preço e, em seguida, retomou o caminho. Cara demais, pensou, e enquanto pensava decidiu não pensar mais no assunto. Quase conseguiu — até o dia seguinte quando, voltando pela mesma rua, tornou a defrontar-se com ela, no mesmo lugar, sobre um suporte de veludo vermelho, escuro, pesado. Um suporte digno de tanta dignidade, pensou. E imediatamente soube que já não poderia esquecê-la. No ônibus, observou impiedoso as gravatas dos outros homens, todas levemente desbotadas e vulgares em suas colorações precisas, sem a menor magia. Pelo vidro da janela analisou sua própria gravata, e decepcionou-se constatando-a igual a todas as outras. Em casa, atarefado na cozinha, dispondo pratos, panelas e talheres para o próprio jantar, conseguiu por alguns momentos não pensar — mas um pouco mais tarde, jornal aberto sobre os joelhos, olhar perdido num comercial de televisão, surpreendeu-se a fazer contas, forçando pequenas economias que permitissem possuí- la. Na verdade, era mais fácil do que supunha. Alguns cigarros a menos, algumas fomes a mais. Deitado, a cama pareceu menos vazia que de costume. Na manhã seguinte, tomou a decisão: dentro de um mês, ela seria sua. Passou na loja, mandou reservá-la, quase envergonhado por fazê-la esperar tanto. Que ela, sabia, também ansiava por ele. Trinta dias depois ela estava em suas mãos. Apalpou-a sôfrego, enquanto sentia vontade de usar adjetivos pomposos e cintilantes, de recriar toda a linguagem para comunicar-se com ela — o trivial não seria suficientemente expressivo, nem mesmo o meramente correto seria capaz de atingi-la: metafísicas, budismos, antropologias. Permaneceu deitado durante muito tempo, a observá-la sobre a colcha azul. Dos mais variados ângulos, ela continuava a mesma, terrivelmente bela, vaga e inatingível — mesmo ali, sobre a cama dele, mesmo com a nota de compra e o talão de cheques um pouco mais magro ao lado. Olhava os sapatos, as meias, a calça, a camisa — e não conseguia evitar uma espécie de sentimento de inferioridade: nada era digno dela. Um pouco mais tarde abriu o guarda-roupa e então deixou que um soluço comprimisse subitamente seu peito de coração ardente, como duas mãos que apertassem para depois libertá-lo em algumas lágrimas desiludidas. Não era possível. Não podia obrigá-la, tão nobre, a servir de companhia àqueles ternos, sapatos e camisas antigos, gastos, vulgares, cinzentos. Foi depois de olhar perdido para o assoalho que teve como um repente de lucidez. Então encarou agressivo a impassibilidade da gravata e disse: – Você é minha. Você não passa de um objeto. Não importa que tenha vindo de longe para pousar entre coisas caras na vitrine de uma loja rica. Eu comprei você. Posso usá-la à hora que quiser. Como e onde quiser. Você não vai sentir nada, porque não passa de um pedaço de pano estampado. Você é uma coisa morta. Você é uma coisa sem alma. Você... Não conseguiu ir adiante. A voz dele estremeceu e falhou bem no meio de uma palavra dura, exatamente como se estivesse blasfemando e Deus o houvesse castigado. Um Deus de plástico, talvez de acrílico ou néon. Olhou desamparado para o sábado acontecendo por trás das janelas entreabertas e, sem cessar, para a colcha azul sobre a cama, logo abaixo da janela e, mais uma vez, para a gravata exposta em seu suporte de veludo pesado, vermelho. Ele enxugou os olhos, encaminhou-se para a estante. Abriu um dicionário. Leu em voz alta: Gravata S. f: lenço, manta ou fita que os homens, em trajes não caseiros, põem à roda do pescoço e por cima do colarinho da camisa, atando-a adiante com um nó ou laço. Golpe no pescoço, em algumas lutas esportivas. Golpe sufocante, aplicado com o braço no pescoço da vítima, enquanto um comparsa lhe saqueia as algibeiras. Suspirou, tranqüilizado. Não havia mistério. Colocou o dicionário de volta na estante e voltou-se para encará-la novamente. E tremeu. Alguma coisa como um pressentimento fez com que suas mãos se chocassem de repente num entrelaçar de dedos. E suspeitou: por mais que tentasse racionalizá-la ou enquadrá-la, ela sempre ficaria muito além de qualquer tentativa de racionalização ou enquadramento. Mas não era medo, embora já não tivesse certeza de até que ponto o olhar dele mesmo revelava uma verdade óbvia ou uma outra dimensão de coisas, inatingível se não a amasse tanto. Essa dúvida fez com que oscilasse, de tal maneira precário que novamente precisou falar: – Você não passa de um substantivo feminino — disse, e quase sem sentir acrescentou mas eu te amo tanto, tanto. Recompôs-se, brusco. Não, melhor não falar nada. Admitia que não conseguisse controlar seus pensamentos, mas admitir que não conseguisse controlar também o que dizia lançava-o perigosamente próximo daquela zona que alguns haviam convencionado chamar loucura. E essa era a primeira vez que se descobria assim, tão perto dessas coisas incompreensíveis que sempre julgara acontecerem aos outros — àqueles outros distanciados, melancólicos e enigmáticos, que costumava chamar de os-sensíveis — jamais a ele. Pois se sempre fora tão objetivo. Suportava apenas as superfícies onde o ar era plenamente respirável, e principalmente onde os sentidos todos sentiam apenas o que era corriqueiro e normal sentir. Subitamente pensava e sentia e dizia coisas que nunca tinham sido suas. Então, admitiu o medo. E admitindo o medo permitia-se uma grande liberdade: sim, podia fazer qualquer coisa, o próximo gesto teria o medo dentro dele e portanto seria um gesto inseguro, não precisava temer, pois antes de fazê-lo já se sabia temendoo, já se sabia perdendo-se dentro dele — finalmente, podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela. Todo enleado nesse pensamento, tomou-a entre os dedos de pontas arredondadas e colocou-a em volta do pescoço. Os dez dedos esmeraram-se em laçadas: segurou as duas pontas com extremo cuidado, cruzou a ponta esquerda com a direita, passou a direita por cima e introduziu a ponta entre um lado esquerdo e um lado direito. Abriu a porta do guarda-roupa, onde havia o espelho grande, olhou-se de corpo inteiro, as duas mãos atarefadas em meio às pontas de pano. Sentia-se aliviado. Já não era tão cedo nem era mais sábado, mas se se apressasse podia ainda quem sabe viver intensamente a madrugada de domingo. Vou viver uma madrugada de domingo — disse para dentro, num sussurro. — Basta apertar. Mas antes de apertar uma coisa qualquer começou a acontecer independente de seus movimentos. Sentiu o pescoço sendo lentamente esmagado, introduziu os dedos entre os dois pedaços de pano de cor vagamente indefinível, entremeado por pequenas formas coloridas, mas eles queimavam feito fogo. Levou os dedos à boca, lambeu-os devagar, mas seu ritmo lento opunha-se ao ritmo acelerado da gravata, apertando cada vez mais. Ainda tentou desvencilhar-se duas, três, quatro vezes, dizendo-se baixinho do impossível de tudo aquilo, o pescoço queimava e inchava, os olhos inundados de sangue, quase saltando das órbitas. Quando tentou gritar é que ergueu os olhos para o espelho e, antes de rodar sobre si mesmo para cair sobre o assoalho, ainda teve tempo de ver um homem de olhos esbugalhados, boca aberta revelando algumas obturações e falhas nos dentes, inúmeras rugas na testa, escassos cabelos despenteados, duas pontas de seda estrangeira movimentando-se feito cobras sobre o peito, uma das mãos cerradas com força e a outra estendida em direção ao espelho — como se pedisse socorro a qualquer coisa muito próxima, mas inteiramente desconhecida.

19 Referências: https://www.youtube.com/watch?v=5bC7UFD0yUU&list=PLZTaJ9e7Joi LXxHSRZTAThT5qIsD3SzvS&index=32 ABREU, Caio. “O ovo apunhalado” Porto Alegre. LP&M Pocket terror-em-duas-frases-da-pra-assustar-com-tao-pouco/)